Pássaros


As palavras perderam-se no embate frontal entre o tempo e a vida. Trinta e nove anos já chegam para perceber que aquilo que ainda não foi feito não será. Mas na derrota cabe uma manhã plácida cheia de riso e alquimia do entrançar de um pequeno-almoço perfeito para a mulher que ainda dorme e ainda não conhecemos enquanto o sol já escorre na nossa cara insone mas deliciada. O quarto cheira a carnes e sonhos suados que escorrem e me deixam sozinho, outra vez sozinho.

Criar, parir, moldar o barro do existir em multiformes poemas de agora mesmo.

Muitas coisas serão feitas mas dói abdicar de algo para sempre. Nunca escreverei nada - um maço de páginas ou um livro - porque percebi que não vale a pena. O acto criativo é como amar - deve pertencer a um presente absoluto, pleno de amor mas com pouco cérebro, sem o peso do motivo porque senão perde a magia e passa a pertencer ao reino dos planos e dos esquemas e do comércio de emoções que não cabem num coração puro que dorme bem e sorri de agradecimento.

Assim que alguém mete na balança os motivos pelos quais ama alguém, então, imediatamente, irremediavelmente, o amor morreu. Assim que decidimos fotografar o sol que tinge o firmamento de vida, o pôr-do-sol morreu. Assim que decidimos analisar formalmente ou estruturalmente a música que enchia a casa de oxigénio e musgo primordial, a música morreu - pode permanecer a sua casca, como testemunho da beleza do mundo, mas o miolo transcendental morreu.

Há um segundo em que dói que nos digam: não és rico porque não conseguiste, ou não escreveste porque te faltou o fogo, ou não foste pai porque és fraco. Sim, há uma réstea de orgulho, mas esse reflexo instintivo de ânsia de bicho-alfa é o finalíssimo lastro que o balão liberta antes de mergulhar nos ares sadios da liberdade.

Esse segundo dói mas não contém verdade - dói simplesmente o constatar de que nada poderia estar mais longe da verdade. O conforto mata. O agreste permite-nos compreender o mendigo e o riso e dá-nos flexibilidade. Há poucas coisas mais importantes que a flexibilidade de ponderar que estamos errados. A moderna humanidade mais parece um aglomerado de troncos decepados e sólidos e bolorentos que rolam montanha abaixo em absoluto desgoverno. E assim espezinham aqueles que tentam ganhar raízes e que voltam a erguer-se a cada golpe porque são elásticos. Elásticos mas sensíveis e vítimas do próprio machado que se atira para debaixo dos sapatos indiferentes dos comboios.

Lá fora há um coro de pássaros tão alucinantemente delicioso - uma polifonia nocturna como uma manta confortável cujas extremidades são invisíveis. Parecem estar em todos os sítios do vale ao mesmo tempo. Dispo a roupa e preparo-me para enfrentar a noite escura-escura de Lua Preta. Dispo-me cheio de medo de algo mas cheio de vontade de não ter medo. Receio, como sempre, que alguém me surpreenda a caminhar nu pela floresta, a meio da noite. Mas o canto dos pássaros guiar-me-á. Está quase. Basta fechar isto e pronto. Mar de vida no barco que todos somos.






Bellini. Migalhas.