a vida escorre veloz e deliciosamente para o fundo do cálice da entropia. quantos tesouros, quanto agradecimento a ser invocado em cada recanto de beleza que assalta vorazmente os meus saciadíssimos olhos insaciáveis. agradeço aos suspeitos do costume: o tecto, a barriga saciada, a paz, e a deliciosa possibilidade de cumprir livremente o poeta que há em mim. depois há amigos e desconhecidos que são supernovas de conhecimento e riso. há musas que convidam ao febril tornado criativo - escrevo e desenho e narro por vós, para vós, explodindo em mim.
finalmente, depois de décadas de audaz mas respeituosa luxúria, a testosterona descansa a um canto. a ausência de amor fez-me compreender a pouca importância do pacto carnal diante da partilha de fenómenos luminosos, de abraços, dos cheiros que preenchem a casa, do despertar das carnes saciadas. quantas coisas insignificantes ganham brilho: a confecção de poções e poemas, a partilha de lições, os bilhetes de amor tecidos durante curtas ausências, o filme japonês a espreitar sobre as mantas.
o carnaval humano desfila a frio. cruzam-se olhares e palavras, coincidências estrondosas, mas as ilhas de amor que decidimos ser arrefecem sós, entre paredes e pixels, rezando por príncipes e princesas que emergirão num dia de nevoeiro pixelizado irremediavelmente condenado à decepção. movermo-nos ao encontro uns dos outros, falar cara a cara, olhos nos olhos, já não é uma opção - há demasiado barulho e pouco conforto para os nossos traseiros mimados. como sociedade, já perdemos. temos medo de ser honestos, medo de expressar afecto e medo daquilo que pensamos uns dos outros. o politicamente correcto transformou-nos em vítimas-relógio que preferem a solidão ao ilusório conflicto criado por notícias e problemas que não nos dizem respeito.
mas basta fechar o ecrã, parar de ler lixo, recusar o medo, para que tudo corra lindamente. basta afastarmo-nos das luzes da cidade e reencontrar a imensidão que cintila, a cada sagrado segundo, por cima das nossas cabeças cansadas.
Ó, querido Hubble...
