Gamelões, Sapos, Forcas e Marionetas


Cursos de água que a terra já não recordava. Atravessar um lago montado no velho opel morsa, a tabelar gargalhadas nocturnas, com água a entrar pelas portas.

Conduzir devagar, a ouvir gamelões, evitando atropelar os sapos gigantes que enchem os peitos sobre a estrada esburacada que o nevoeiro devora.

A ponte sobre o rio arade, no meio da chuva e das brumas, com as luzes vermelhas a piscarem, dá-me uma imensa ternura por esta humanidade infantil e pelos seus brinquedos destructivos que o tempo não tardará a esquecer.

A ponte ruirá com o peso de gerações verdes. A última bomba da terra explodirá, sozinha a um canto, como uma árvore que cai ou um pássaro doente que se aninha num arbusto final.

Mas o cantor ambulante é eterno porque é metafísico. Existe porque existe uma necessidade de cantar e ouvir que irá sempre brotar pelo universo fora, em qualquer planeta, desfiladeiro ou labirinto urbano. O assassino é eterno, tal como os amantes. Somos mãos sem olhos a operar uma horda de infinitas marionetas. E, se repararmos, tudo é imensamente divertido e pouco sério. Até a morte é um jogo e recuso-me a injectar seriedade no sangue materno que se enforcou ontem, sozinho, terrivelmente sozinho, talvez olhando com rancor para o telemóvel silencioso e mortífero. Morreu esmagado pela solidão da quadra festiva, brilhante e cruelmente hipócrita.

Uma mão desliza para fora da marioneta, outra mão toma o seu lugar. Uma tecla do gamelão derrete para dar lugar a uma nova.

Cada planeta habitado ou deserto é uma tecla de gamelão onde o grande macaco albino e infinito se diverte a tocar - podem cristalizar-se éons de silêncio mas, nem que seja além do cume enevoado da montanha da entropia, a nota voltará a ser tocada e o pó da alegria fará deus espirrar e criar um outro novelo de suave e morna vida.







Oskar Laske (1874-1951)