No outro dia, cara colega, confessaste-me a tua crença naquele deus que crucificou o próprio filho. Falámos, em paz, sobre o teu catolicismo-apostólico-romano e o meu agnosticismo-científico-mágico-bárbaro. Estávamos no trabalho, com as mentes ocupadas.
Em casa, a gata preta decidiu seguir-me pela terra acima e abaixo durante mais de uma hora. Já lhe tinha dado comida portanto ela obedecia unicamente à curiosidade. Quase levou uma marrada de uma das cabras mas continuou a seguir-me. Serrei alguma lenha e ela tentou, incauta, atacar o serrote. Acendi a sauna e ela entrou lá para dentro; também ela a arder de curiosidade diante daquele bizarro templo sem mantas, sem comida, sem deuses. O único som era o coro da madeira a arder. E a gata lá dentro, sem acreditar em nada, fazendo-me recordar a loucura humana.
Então lembrei-me de coisas gravíssimas. Lembrei-me que esse teu deus não sabe rir nem dançar. Num doloroso acesso de lucidez, lembrei-me também que esse teu deus tem medo do amor! Então, fulminado e sem ar, pisoteando no chão a minha derretida fé na humanidade, senti uma imensa necessidade de algo animal, instintivo e real, de um qualquer elemento redentor. Não havia gente em torno portanto restava-me a arte, a música.
Acabei por ouvir algo que estava escondido há anos. Vieram-me as lágrimas aos olhos e esqueci-me imediatamente desse teu deus e de qualquer teoria; qualquer argumento teológico, meu ou teu, derreteu em insignificância. Fartei-me de chorar de amor e insaciável vontade de amar.

Chavela e Frida, ca. 1945