Dormir quatro horas trabalhar doze conduzir duas. Todo o dia as mãos fustigadas pela triste ideia de ter passado uma manhã com as mãos demolhadas em cimento. Feridas eléctricas. Trabalho acabado, já de noite, a cozinhar, a ouvir polifonias da savana. Depois silêncio e verter águas na escuridão da varanda sem corrimão. Huckleberry Finn. Uma palpável Via Láctea por cima da alma. Na outra noite ouvi o mar a rugir a quarenta quilómetros de distância, mas hoje há um silêncio sólido como uma manta pesada e derradeira. É hora de viver.
Amanhã tenho uma aula para dar e, pela primeira vez, estou um pouco inquieto e sem ânimo. Há dois demónios pestilentos a sobrevoar-me a nuca. Um chama-se "Boring" e o outro "That's so weird". Os putos são uns queridos mas dói-me sempre na alma a sua incapacidade para aceitarem o belo e o estranho. Trazem os cliques cibernéticos entranhados nos ossos. Querem, constantemente, passar o presente para a frente (fast forward) para um qualquer momento menos entediante ou estranho - desconhecem que são as suas renúncias, o seu mórbido desejo de conforto e os seus supersónicos julgamentos que são entediantes e estranhos. Claro que isto é um desabafo - amanhã tudo será abalroado por um positivismo visceral como um punhal embebido em mel.
Já agora desabafo um pouco mais. Sempre houve e sempre haverá choques geracionais. Mas aqui há mais que isso. A tecnologia está a criar putos sem alma, biomecanicamente mortos, adictos às doses de dopamina que os cliques e os blingues lhes oferecem a cada vinte segundos. Já não é questão de uma geração ser mais forte ou vivaz que outra. É questão de uma geração crescer já morta. O smartphone: o quinto cavaleiro do Apocalipse. Fim de desabafos de professor.
Ontem deixei de parte muitas tarefas fulcrais para escrever um manuscrito de paixão (não confundir, jamais, paixão com amor). Envolvia couves e era límpido, poético e rico em imagens. Envolvia a décima sinfonia de Beethoven. A caligrafia e os desenhos saíram livres de medo. Fiz um laço e encontrei um micro-saquinho para as sementes de couve. Mas ela não apareceu. Menos mal que a paixão, neste momento da vida, se cura facilmente com uma pequena dose de lucidez. Ou de imaginação - basta-me imaginar que ela não compreenderia a filigrana do sonho e pronto.
Não triste, mas um pouco sem energia portanto prestes a levantar-me e fazer coisas explosivas. Talvez não possa desenhar porque tenho os dedos em carne-viva. Portanto vou levantar-me e levantar os halteres até colapsar de exaustão. Vou levantar-me e desenhar com dedos vivos a ouvir música dos piratas do golfo arábico. Depois vou tocar as kalimbas e ler até adormecer. Acordarei com o sol, cheio de vontade de amar tudo o que se mexa. Tecto, comida, folhas brancas e amor - o resto não importa.
A energia é como o tempo - quanto mais se gasta mais se tem.
Ah, que mundo delicioso. Quantas curas!
Turner.
Barco a neve em tempestade de vapor.
