os dinamarqueses partiram e a terra finalmente respira. fiquei com a casa deles e acabo de rastejar para fora da sauna, ensopado em delícia e músculos de mel. o céu negríssimo estava quase branco com o brilho das estrelas.
pobre dinamarquês, triplo cinturão negro e mestre de yoga, perdido na putrefacta noção de que é um génio predestinado a ser idolatrado e cuja opinião é soberana e superior a qualquer outra. pobre dinamarquesa de bom coração, pobre infeliz, acorrentada pelo amor ao tornozelo de um imbecil que a desrespeita detrás de uma máscara de supostamente vital aprendizagem. mas, pronto, estou-lhes muito agradecido por me ensinarem uma multitude de coisas que jamais se devem fazer. desejo-lhes tudo de bom e estou-lhes muito grato - sobretudo pela sauna.
estou com vida até aos peitos e a adorar o evaporar do eremita que habitava em mim. já andava apaixonado pela vida e de repente fui fulminado pelo sorriso de uma mulher. sinto-me sufocado por não conseguir escrever e desenhar tanto quando o meu electrizado coração pede, mas tenho tocado kalimba furiosamente e narrado poemas de amor para dentro de um pequeno gravador. apaixonei-me por uma mulher que vislumbrei três vezes e com a qual troquei sete ou oito palavras. da minha parte foi mais um balbuciar - pois algo secreto, diáfano e sagrado, que habita naquela criatura, me esfiapou completamente a lucidez. tenho a certeza absoluta de que não vou conseguir falar com ela, jamais, porque ela se limitou a materializar-se três vezes no meu local de trabalho, nada mais. mas contudo aproveito ao máximo o meu platónico amor e a energia que bebo ao evocar tal musa.
chego a casa ébrio de paixão e escrevo poemas de agradecimento e desenho formas geométricas que se transformam em formas orgânicas fabulosas. escrevo e desenho simplesmente para agradecer tudo o que ela, na distância e no silêncio, já me ofereceu. porque a energia que recebo ao recordar o seu sorriso já se transformou em lindas paisagens e melodias e inspiradas lições para os meus alunos. levanto-me ainda de noite para fazer yoga e levantar pesos com o único intuito de ser mais forte e hábil - faço-o não para me pavonear, ou inchar o ego, mas simplesmente porque sei que a força permite gerar mais abundância e dar mais. sei que nunca lhe darei nada, nem mesmo estas palavras, e quase que me entristeço por assim ser.
na minha sede de aprender por ela, para ela, levantei-me uma manhã e perdi-me numa caminhada pela floresta à procura da minha primeira colheita de cogumelos (chicken of the woods, laetiporus gilbertsonii). encontrei-os e cozinhei-os ao almoço e tudo bem. cozinhei-os ao jantar, a imaginar-me a cozinhá-los para ela, e depois acordei a meio da noite com a digestão quase parada - não eram cogumelos venenosos, mas tinham absorvido os óleos dos eucaliptos.
na minha sede de crescer também me pus alguns minutos de cabeça para baixo, em śīrṣāsana, mas regressei à verticalidade normal demasiado depressa e então andei dois dias tonto e com a tensão baixíssima. é quase impossível que ela me venha a amar mas é bastante plausível que me venha a matar - e aqui reside a ternurenta e imbecil magia do amor.
gostava que ela lesse estas toscas palavras, ou as palavras realmente inspiradas que talvez ainda estejam guardadas na gaveta, mas parece que o mundo se tornou num sítio complexo pleno de medo de manifestações de amor ou fraternidade - ou talvez esses medos vivam em mim - portanto fico aqui, em silêncio, na floresta. e acendo o fogo com os poemas mais bonitos porque a existência desses versos e a incapacidade de os entregar resulta-me insuportável. por isso agora escrevo nesta máquina e me apresso a publicar isto para ninguém - a internet permite o curioso jogo de gritar para ninguém sentindo que o mundo inteiro nos escuta.
nunca lerás nada disto, nunca saberás que bastava um diminuto gesto teu para que eu te dedicasse a vida. nem é preciso poluir o momento pensando em fusões carnais. bastar-me-ia cozinhar para ti, fazer-te massagens, contar-te histórias, cortar lenha e aquecer-te, contar-te mais histórias, levar-te a conhecer os recantos mais bonitos que já palmilhei mas também a explorar novos trilhos.
menos mal que tampouco lerás que estas paixões são em mim frequentes e que incidem em mulheres, livros, músicas, árvores e velharias e poemas e histórias. muitas paixões como esta desabaram assim que percebi que o instinto me havia direcionado na direcção de uma mente sem amor pelos sonhos. e recordando isto farto-me de rir da minha própria loucura. no fundo não faz mal ser louco desde que não arrastemos ninguém para as brumas do caos. talvez este parágrafo seja um ilusório mecanismo de auto-defesa.
mas pronto. menos mal que tenho um tecto, comida, saúde, arte, alegria e amor para distribuir em todas as direcções, em todos os momentos, a toda a gente. a leve angústia de não me pertenceres é o mergulho no mar de um eterno dia de sol. obrigado, musa.
