eu não sou nada. isto é um fragmento quotidiano de alguém.
tenho de acordar dentro de quatro horas, comer, conduzir pela madrugada adentro com os vidros sujíssimos do carro a distorcerem as luzes como se a superfície do mundo fosse o dorso de um acordeão de neón e costelas e peles ressequidas da luminosa luxúria das noites. depois vou parar na bomba de gasolina para que a senhora das unhas postiças, bruxa generosa, me sirva uma zurrapa negra e mágica chamada café.
depois conduzo um quilómetro, ignoro um traço-contínuo e enfio-me no ventre de um convento do século dezasseis. o convento ruiu em 1755 mas foi restaurado e agora é um pouco chic e perdeu alguma mística mas os fantasmas dos pobres frades continuam cheios de musgo na boca. há quem acredite em desinspiradas coisas parvas com espíritos e assim, mas eu só acredito em frades descalços com musgo na boca a chocarem pelas paredes grossas do convento como carrinhos de choque sacudidos pelo último terremoto da Terra e dos tempos.
toda a gente diz que o convento está assombrado e que qualquer projecto que germine no seu interior está condenado a um fracasso amargo. uma senhora estrangeira teve convulsões na parte da arrecadação e saiu de lá em lágrimas dizendo que o sítio estava carregado de más energias e musgo na boca. eu lembrei-me logo que a energia é neutra - existe ou não existe - e que as etiquetas boas ou más só existem na cabeça das pessoas.
farto-me de rir das superstições medievais das pessoas mas quando trabalho lá à noite, sozinho, e atravesso as colossais paredes onde seres humanos padeceram religiosos horrores, devo confessar que olho por cima do ombro com alguma velocidade e constância. já agora confesso que uma vez, atravessando uns quilómetros de selva a meio da noite, durante uma tempestade de água e estática, me fartei de rezar. escorregava das pontes (meras árvores derrubadas) para dentro dos charcos negros e ficava submerso até ao peito enquanto insectos de quilo me embatiam nas fuças porque tinha de levar o frontal ligado para não cair dentro dos fossos onde já me encontrava. receava sobretudo os raios, porque toda a realidade estava encharcada, molhada e ensopada. sim, acagacei-me um bom bocado e rezei pais nossos, mas eventualmente mandei deus à merda, desliguei o frontal e entreguei-me à vida - que é como quem diz à morte - e, claro, sobrevivi e ganhei uma casca que me serve fielmente todos os dias.
de resto, não acredito em parvoíces, mas resta apenas contar que decidi apanhar ópio selvagem para usos medicinais - para qualquer emergência dental.
e agora o mistério: depois de seis meses a acordar todos os dias entre as seis e as oito da manhã, subitamente, durante três dias, acordei depois das nove ou perto das dez. ao terceiro dia olhei para perto da minha cabeça e reparei nas cabeças de ópio secas que repousavam dentro de uma tacinha. claro que pode ser uma coincidência que essas três manhãs resinosas tenham coincidido com o exacto momento em que depositei as papoilas secas na mesa de cabeceira. resta dizer que não tomei ópio ou qualquer outra substância. não tomo substâncias adulterantes - excepto doses moderadas de café e cerveja artesanal nos dias de trabalho.
eu não acredito em nada mas os vapores metafísicos teimam em acreditar em mim. sou uma criatura que habita a racionalidade mas que guarda segredos metafísicos nas gavetas empoeiradas da alma. sou feliz.
Ukiyo-e de autor desconhecido.
Devo tê-la encontrado enquanto explorava os deliciosos
"Cem Aspectos da Lua" do mestre Yoshitoshi Taiso.
