Hoje, dia décimo sexto, dia de eclipse, celebro o aniversário do meu périplo viral. O planeta girou pelo negrume afora, livre e indiferente, enquanto eu lidava com circunstâncias novas e trágicas - ou, como o tempo revelou, apenas difíceis. Um vírus comum, o desorganizado exército de uma gripe, experimentou ignorar os pulmões e alojar-se no meu coração. Uma simples mutação. Miopericardite aguda. Atónita ambulância, cadeira de rodas, pijama verde, gargalhadas incrédulas.
Imediatamente depois de sobreviver ao isolamento de Hornstrandir, a caminhadas com quinze quilos às costas com neve até aos tomates, depois de atravessar rios glaciais em pelota, com a mochila sobre a cabeça, e de me esquivar a nevoeiros e escarpas de absurdo perigo, vi-me então, subitamente, acorrentado a ventosas e aparelhos suspeitos, apreciando as andorinhas e o pôr-do-sol mediterrânico através da janela do quinto andar do Hospital de Faro. O destemido explorador, vergado por um simples vírus, a engolir o ego e a aprender mais uma lição de humildade.
Essa tarde foi estranhamente plácida e serena, mas a noite trouxe dores intoleráveis que, estranhamente, não eram acompanhadas por medo. O meu longínquo e já completamente desfasado desejo de experimentar morfina foi correspondido por um: Lamento, mas nestes casos não podemos dar-lhe absolutamente nada. Tem de aguentar. E aguentei com maior facilidade porque a maravilhosa enfermeira Dinora materializou-se a meio da noite com duas almofadas e ensinou-me uma postura que oferecia algum alívio. Mas o maior bálsamo foi a sua voz terna e a sua compaixão. Só estive cinco dias internado mas recordo muitas vezes a enfermeira Dinora. O seu riso e o seu positivismo iluminavam os quartos por onde passava e lembravam os empijamados que ainda existia uma coisa deliciosa chamada vida.
Adorei, sobretudo, ainda no hospital, perceber que os anos me haviam permitido crescer - porque estava agradecido pelas andorinhas e pelo calor e pela comida que me vinham entregar à cama como se eu fosse um rei. Estava lúcido e sorridente e nunca receei morrer - fartei-me de rir quando me enfiaram na maca. Lembrava-me constantemente que na maioria dos sítios deslumbrantes e recônditos por onde havia passado, em tempos recentes, uma tal brincadeira viral teria consequências graves. Quanta sorte a do europeu mimado, quantos motivos para estar agradecido!
No hospital ainda perguntava às médicas, como um imbecil, se poderia ir ao festival de Sines. Desde 2006 que sonhava com o regresso a essa caixa de Pandora de cores, música e amores. Passei onze felizes verões na Escandinávia, mas um canto da minha alma era invadido por um desejo de calor abrasador, música de verdade, e de uma estirpe de ócio familiar, milenar, que consiste em torrar na praia sem nada dever nem temer. O segundo inverno islandês custou a passar porque o meu espírito já mergulhava na costa vicentina e nos ritmos escondidos do mundo. O corpo regressou à pátria, electrizado de ansiedade, mas apenas para se entregar a um vírus e a uma forçada eremitude completamente assíncrona.
Este ano estou de pé, completamente recuperado, cantando a saúde e o amor. Fodasse, quanta sorte por estar vivo, são, com braços e pernas e capaz de bailar! Sobretudo, depois de tantos anos de relações, que maravilha ser livre. Todo o meu corpo, toda a electricidade do meu instinto, se derramam sobre as mornas planícies de um presente sem qualquer compromisso. Quantas maravilhas a explodirem por todo o lado! Páginas que encerram os sonhos de criaturas mortas há décadas, séculos, milénios! Ecos musicais de todo o mundo na palma da mão e do pé. Explosões e catedrais de cor. Um país em paz. Saúde. Comida. No Verão, nem é preciso tecto. O tecto consiste num infinito mar de estrelas. Tapete de delícias. Vida. Uma imensidão para agradecer.
Francisco de Goya y Lucientes.
