não há nada como expelir um pouco de veneno porque se mantemos a amargura adentro tornamo-nos amargos e não sorrimos pelas vielas da vida e cada rosto não formatado torna-se um convite ao medo. mas claro que não podemos deixar uma qualquer folha repleta de amargura. temos de equilibrar a limonada com mel.
AMARGURA.
tenho sido invadido por fulminantes visões do apocalipse que já nos devora. campos de terra ressequida e eucaliptos raquíticos, de quarto corte, secos de tanto secar, solitárias testemunhas do estupro da terra. as cegonhas todas cagadas com as nossas comidas radioactivas e gordurentas e os seus ninhos decorados com os sacos de plástico que envolvem as merdas inúteis que jogamos fora duas horas depois da compra. o lince ibérico libertado e ternamente decorado com trezentas bolinhas de chumbo (verdade). as gaivotas a fazerem dezenas de quilómetros adentro porque o peixe que deveria estar no mar foi trasladado para os contentores do lixo dos supermercados. e que tristeza ao olhar para a frente, no meio de qualquer espaço público, e ver os smartphones especados a olhar para as pessoas vazias - como se houvesse algo a procurar dentro delas.
um dia rastejei para fora de doze horas de trabalho, sonolento e esfomeado, completamente desnorteado e vazio. quis o destino que fosse comer, pela primeira vez em quatorze anos, num centro comercial. pizza hut pareceu-me o menos nojento. toda a refeição estava envolta em plástico ou papel. a colherzinha de plástico envolta em plástico, a palhinha envolta em plástico, o plástico envolto em plástico. a massa da "pizza" tinha tanto açúcar que parecia uma fartura. um nojo. e era invadido por esta vergonha ácida de estar ali, sentindo-me julgado, mesmo quando toda a gente estava ali com a consciência tranquila e envolta em plástico. poucos falavam, mas muitos eram observados pelos smartphones. escapei, quase a chorar, esmagado pela constatação de que estamos a foder um planeta-paraíso para enfardarmos variações de açúcar, sal e bacon, para nos embriagarmos com infantis jogos farmacêuticos e sermos observados, comprados, escravizados e usados por produtos absolutamente inúteis.
depois entrei no carro, deixei soar o Requiem (Mozart/Karajan), e chorei serra acima até começar a rir de tudo, da minha loucura e da loucura de todos nós. eu compro livros e tresando, ainda, ao gasóleo que me permitiu arrastar o cu dentro de aviões durante anos. eu pego no carro e vou à praia, sozinho. eu já desenhei sobre toneladas de papel, já gastei toneladas de tinta sintética.
outros comem farturas, quadriplicam a gordura do corpo, observam vídeos de outros homo sapiens a copularem, compram setenta pares de sapatos mesmo quando apenas possuem dois pés. somos todos loucos. mas se a minha reacção diante dessa loucura for triste e amarga, então torno-me num louco triste e amargo. mas se rir com humildade diante da nossa loucura tudo se torna tão mais leve e suportável.
o mundo derreterá independentemente da minha amargura ou fé. controlo a minha loucura porque sinto que o devo fazer - não o faço para seguir dogmas ecológicos da moda, nem para salvar nada nem ninguém porque não sou nada nem ninguém para o dever fazer. querer salvar ou resgatar outrém é, inevitavelmente, um acto de julgamento. quem sou eu para julgar outros?
bebo com sorvos pacificados a segunda lei da termodinânica. recuso-me a aceitar o eterno antropocentrismo ou o antropoceno. sorrio diante da visão do último urso polar a carregar num botão secreto que deixa toda a humanidade paralisada, de cócoras, de rabo para o ar e calças em baixo, e farto-me de rir. farto-me de rir quanto imagino a vida a pulular outra vez, mais magnífica que jamais - sobretudo quando imagino o temível ornitorringo-dente-de-sabre.
vivo ao lado de um dinamarquês, triplo cinturão-negro de karaté, mestre de yoga e enciclopédia de plantas medicinais. cobra duas mil moedas de ouro para iluminar outros seres vivos - ou, pelo menos, acredita nisso. acontece que o dinamarquês se esqueceu de como rir. para ele o mundo é um sítio profundamente injusto e tudo o que fazemos é digno da mais violenta reprimenda. qualquer tópico de conversa embate a duzentos quilómetros/hora contra o muro de um peçonhento pessimismo que julga tudo e todos - excepto sua excelência, o iluminado. toda a gente que o rodeia deixa de sorrir após cinco minutos a ouvir os seus monólogos furiosos. é doloroso estar perto dele.
por outro lado, quando me sento ao lado da tribo de supostos acéfalos montanheiros (assim crê o dinamarquês) ensopados em aguardente de medronho desde as seis da manhã, sinto-me em paz. fartamo-nos de rir. e estes montanheiros, ao contrário do dinamarquês, não perdem tempo a apontar dedos, nem se nutrem de arroz selvagem, quinoa, maca, espirulina, farinha de teff e outras superfoodzinhas arrastadas dos quatros cantos do mundo. os montanheiros plantam e matam a própria comida, não têm as casas cheias de toneladas de pedrinhas e paninhos da Índia, nem gastam um quilo de incenso sempre que alguém dá uma bufa.
ok, sejamos honestos: muitos dos serranos, apesar das suas virtudes, são racistas, machistas, tratam os animais como merda e sacrificariam um bosque inteiro por um punhado de notas. mas, contudo, há um meio termo entre a Dinamarca e a Serra, o nazi e o anarquista, a feminista e o machista, o capitalista e o comuna. pessoal, temos de ficar no meio da jangada, a equilibrar a coisa, a cantarmos com um sorriso nas trombas, senão afundamos todos.
MEL.
nem consigo escrever sobre o mel porque é tanto e tão generoso. hoje descobri os daguerreótipos de Joseph-Philibert Girault de Prangey. meu deus, que mundos tão estranhos e preciosos, como sonhos, ou contos de Borges, ou vinhetas de Little Nemo in Slumberland ou manhãs psicadélicas em refúgios de montanha da Córsega, a fazer amor em frente à salamandra acesa enquanto a infusão de rosa-canina ferve com a intensidade das chamas ou do amor. ah, quantas delícias nas galerias imensas deste barco que se afunda a arder.
Daguerreótipo de Joseph-Philibert Girault de Prangey.
Representa um qualquer planeta desconhecido,
ou a ponta de um qualquer iceberg de sonhos,
ou um seio da Tunísia ou da vida.
