Tradução de uma entrada do K13 Cosmic Observatory, de Reykjavík, para exercitar os dedos e a alma. Nem o meu inglês nem o meu português estão em grande forma, mas espero que bastem. O texto em si impressiona pouco – é a sua conjugação com a fotografia de Koudelka que vale a pena. Depois de ler o texto, olhando para a fotografia, não consegui conter uma subtil rajada de gargalhadas.
…
Naquela manhã solarenga Pierre apontou o telescópio à única nuvem que deambulava pelo céu. Os raios dos seus olhos tabelaram e viajaram até uma Jugoslávia da segunda metade do século XX. Pierre viu Bajram Farkas, um ciganito com cinco anos, de mão dada com o seu pai, numa padaria. Não era claro se o pai estava a tentar comprar ou vender farinha. O que é extremamente claro e importante é o impacto que o amassar do padeiro teve sobre o pequeno Bajram.
O ciganito compreendeu que o padeiro estava a canalizar o seu esforço para transformar a massa em pão. Podia ver o aprendiz de padeiro a colocar a massa no forno para, momentos depois, retirar pão quente. Porque diabos o padeiro se limitava a transformar a massa em pão – em vez de materializar doces, brinquedos ou dinheiro – era algo incompreensível para o jovem Bajram.
Os ciganos são criaturas livres, audaciosas e pouco dadas a seguir regras – sejam as regras do homem, da natureza, ou da própria realidade. Bajram cresceu a ver as mulheres a transformarem animais em comida. O seu avô conseguia reencher garrafas vazias com um estalar de dedos. Uma vez tinha visto uma faca a transformar um homem em pó. Bajram estava, portanto, plenamente convencido que era possível transformar massas em qualquer coisa que ele desejasse.
O fogo dessa visão nunca se extinguiu. Ao longo dos anos Bajram amassou secretamente centenas de massas – experimentou todas as farinhas, usou terra e pó, serradura, gesso e giz, água, vinho, aguardente e sémen. Usou diferentes fornos, tachos, panelas, barris, cozeu com ar e água, luz e escuridão. As suas experiências suportaram várias frustrações, tristeza, loucura, tudo misturado com a intensidade da vida nómada, com os milagres da vida e do amor, e com a opressiva ronda da morte.
Os resultados de tais experiências só encontravam sucesso na obstinação de recusar o fracasso, ou então no embate com a fértil substância da imaginação. Mas da mesma forma que subtis gotas de água conseguem, pouco a pouco, rasgar montanhas e formar desfiladeiros, também a visão de Bajram conseguiu perfurar a realidade. As suas primeiras metamorfoses consistiram em pequenos objectos inanimados – relógios, moedas, facas e pregos. Mas o fermento do sucesso não tardou a permitir que Bajram transformasse massas em coisas vivas e complexas, em qualquer coisa que ele desejasse.
Sentado no telescópio Pierre viu grandes sucessos, festas e farras, o baile de quimeras em torno da fogueira, e a imensa felicidade de um povo inteiro. Contudo, bem no fundo da sua visão, Pierre vislumbrou grande breu, a loucura do poder, a inveja e a dor, o derradeiro juramento de Bajram e a resignação pacífica de gente habituada a ter tudo não tendo nada.
Para nos mostrar o que havia visto naquela pródiga manhã no Observatório, Pierre escolheu revelar um único negativo do telescópio – uma humilde fotografia de Bajram a transformar um grande bocado de massa, de farinha de centeio integral, banha de porco e vinho branco, num lindo cão pastor dos Balcãs, para grande deleite da sua mulher e filhos.
Josef Koudelka, 1968.
