Cebola-cheia de Junho


Havia uma estranha peste, um vírus bizarro, a fazer com que as cebolas perdessem a força no talo. O vírus seguia padrões completamente ilógicos e caóticos, como se bailasse no cebolal.

A lua-cheia nascia detrás das montanhas quando fui regar as cebolas e me deparei com Baguincha, a gata preta, espantada a olhar para mim como quem diz: o que é que este faz aqui a esta hora? Estava deitada na palha, de costas para a lua, felina como uma rainha viúva. Eu comecei a regar enquanto a lua subia, vermelha e gorda, e os mosquitos encetavam um festim chamado pessoa.

Foi então que, de repente, a gata começou a bailar em cima das cebolas e a remexer a terra, rabo no ar e orelhas para trás, e a partir os talos. E então percebi tudo. A lua-cheia atraía as minhocas para as camadas superiores do solo e as toupeiras também subiam para comer cebola com minhoca e a Baguincha tentava apanhar as toupeiras partindo tudo no processo. Eu era apenas uma outra criatura, deslumbrado com a lua e com aquele circo, sem interferir em nada mais do que no grau de humidade do solo. Imaginei as cebolas-cheias, eu a regar a lua, e as toupeiras a furarem o céu, e a grande gata cósmica a partir os talos do tempo.

Lembrei-me que muitas pessoas costumam deitar glifosatos nas cebolas, com doses adicionais para os buracos de toupeira. Para não perderem um par de cebolas, preferem matar as toupeiras, comer cebolas envenenadas e perder o grande circo dos cebolais de lua-cheia. Seria fácil deixar-me contaminar por esta triste lembrança, por este profundo e doloroso constatar da imbecilidade humana. Mas para quê, se existe a possibilidade de recordar a Baguincha a dançar por cima das toupeiras refasteladas a olharem, cegas mas atentas, como quem vê um filme, para a maravilhosa realidade da superfície?

Plantar a minha própria comida enche-me a alma como se todas as cascatas do mundo, subitamente, se elevassem e conjugassem na estratosfera e depois se precipitassem velozmente para baixo, qual uivante e colossal e fresca serpente, na direcção da boca de um alguém tão sedento quanto indestructível e portanto capaz de suportar as toneladas de saciar que lhe entram pela garganta e olhos e pulmões adentro. Cascata de água fresca e limpa na boca da alma.

Há também um vírus húmido (oídio) em algumas plantas e combato-o com iogurte, fé e acordes estranhos reverberados pela melódica ou kalimba. A música, tal como qualquer outra arte, é alérgica ao medo. Com medo nada sai bem. Portanto escondo-me na horta, ou debaixo das luas-cheias, onde nenhuns ouvidos me invadem de medo ou vontade de impressionar, e toco coisas que o mundo nunca ouviu - a maioria soa terrivelmente mal e a minoria soa mal. Digo às plantas, com um sorriso: ou vocês se curam ou componho uma sinfonia!

Contudo, pelo menos uma vez por ano, salta-me dos pulmões ou dos dedos uma substância preciosa chamada: beleza. Essa substância não me pertence - pobre tolo, aquele que julgar possuir a beleza. Qualquer obra, qualquer gesto, é fruto de uma infinita quantidade de encontros e desencontros, de fragmentos de beleza alheia, de amor e dor. A beleza pertence a todos e a ninguém.

A certa altura, pelas veredas da vida, aprende-se a identificar com alguma exactidão os covis da beleza - esta mora onde o medo e o ego evaporaram, onde o dinheiro não cravou as garras, onde o caos e a ordem bailam livremente, onde as cebolas e as toupeiras não são inundadas com veneno.

Neste momento vivo, com gente de ouro, no topo de um monte com quatrocentos metros de altura com vista para metade da costa algarvia. Tudo verde e delicioso excepto o mar de eucaliptos, alguns distantes moinhos de metal e os uivos diabólicos do autódromo - próximos e irritantes quando a mente está no sítio errado, mas longínquos e inofensivos quando a mente está absorvida pelos milagres de vida que explodem nas ladeiras, hortas e charcos. É uma terra linda, uma casa fantástica, e o melhor de tudo, talvez, é que nada disto me pertence. Assim, sou livre (Obrigado, Sr. Thoreau).

Na lua-nova vou descer ao charco onde os sapos improvisam polifonias sólidas e arrebatadoras. Os montes criam um anfiteatro que esconde as luzes das urbes e levanta o véu da grande serpente láctea do céu. Gostava de convidar o mundo inteiro para rever a fugidia Via Láctea e deixar-se embalar pelos bichos. Mas a minha voz perde-se no meu próprio labirinto, e o mundo encontra-se no medo, sem tempo e sem vontade. Resta-nos isto.







Daguerreótipo de Joseph-Philibert Girault de Prangey.