Hérnias para Porcos


24 de Abril de mil sonhos enquanto a chuva escorre montanha abaixo com dentes de vórtice lácteo. as palavras desapareceram subitamente da minha vida e, seguramente, também a vida desapareceu das minhas palavras.

apetecem-me as preocupações de um eremita asiático esquecido entre pedras e musgo. a placidez de uma pedra esquecida entre musgo e eremitas mais distantes que estrelas. o odor a verde.

a última lua-cheia revelou-se vazia.

cometo suicídios diários enquanto canto deslizando por entre as curvas íngremes de uma estrada fantasma de terra batida - percorri-a cem vezes e ainda não avistei, sequer, o vestígio de um outro bólide. há pedras que já conheço e que permanecem intocadas, adormecidas, adormecidas no leito de uma rotina cujo marido não voltará a casa. a estrada é uma realidade paralela pré-apocalíptica. os cães são profetas que abocanham o pára-choques da esperança enquanto os céus se avermelham com as faíscas de murros derradeiros.

tut. tut.

entretanto é Maio e sabe bem derreter na horta para logo me imiscuir no mar vicentino. há verde nos olhos e vermelho no sangue. o Sahara Ibérico germina violentamente mas nós, excelsos humanos, preferimos continuar a comer o papel da ignorância. os carros rebolam debaixo dos nossos pés culpados enquanto os camelos cruzam o estreito a nado.

acabou-se a paciência de eremita celibatário. um fervor instintivo ferve-me o sangue com vontades de romances explosivos. não consigo ler livros de papel. apetecem-me livros de carne e vozes desconhecidas a embalar a alma. corpos nus e desconhecidos a amanhecerem lado a lado. tão fácil que seria, no turbilhão da viagem; e que difícil, que complicada, a vida em câmara-lenta do ser sedentário. as pessoas fecham-se em rotinas e círculos sociais herméticos, bolorentos, indestructíveis. quem tem paciência para rebolar pela ladeira do gemido abaixo, para sondar enciclopédias escandinavas à luz da vela, para sorver poções caseiras e contemplar fragas perdidas, quando há a quarta season do Caralho-que-te-foda para ver?

e a peste virtual, meu deus! quantas vidas, quanta juventude perdida no labirinto dos monitores. a vida lá fora, a berrar, mas os rostos envergonhados, calejados pelo tédio, preferem definhar no silêncio e na escuridão. como agradeço a benção de haver nascido entre a ditadura analógica e a digital. e que triste fardo se carrega no reconhecimento do potencial perdido (o meu incluído). a liberdade a chapinhar no lodaçal de uma preguiça diamantina. aranhas a desenharem teias de vazio num mundo completamente inundado de opiácea seda.

menos mal que a vida é um milagre delicioso e constante. retroactivas anginas de peito de tanto amar. quantas maravilhas!

na outra manhã quase atropelava um rato de campo. travei a fundo e o carro deslizou e o rato nem se mexeu. a roda passou-lhe ao lado. eu abri a porta e ele lá estava, a olhar para mim. falou-me da dimensão em que eu cavalgava para o emprego num rato gigante - uma manhã quase atropelava um opel corsa pequenino que lá ficava, a olhar para mim. e por aí fora, com a imaginação e as palavras aqui, estéreis, a patinarem numa vontade que, apenas por querer, não chega a lado nenhum. que vazio. que rombo implacável no casco da imaginação.

fadiga. nuvens de fadiga.







Foto de Garry Winogrand.
Adão e Eva.