Uma hora em Março de noite espelho baço e feliz.
Perdi-me de mim mesmo no exacto momento em que me achei - como se a vida fosse o momento em que a boca se abre para receber a providencial gota de orvalho que evapora quando a boca se abre. A gota é a beleza e a mandíbula o amor. O deserto que encarnei quando nasci revelou-se esmagador gerador de multiplicidade de opções. Portanto, para mim, ser encastrado em âmbar sabe a liberdade.
Conduzo 86.8 minutos por dia. Casa Velha - Lagoa. Para baixo pelo caminho de terra-batida, cercado por árvores, a ouvir coisas tão bonitas que somente recordá-las me faz descer lágrimas dos olhos para baixo. Às vezes vou de janela aberta a ouvir os pássaros e o grito negro-azul do céu. Parto de noite, com frio nos dedos, enquanto o pica-pau ainda sonha com um amor de infância. Na outra madrugada vi uma cobra prateada a voar-me por cima do capot. Juro.
A N125 é como uma pele a mudar de cobra (outra vez) e o sol aparece como manteiga a derreter para o tecto do casarão onde habitam os nossos sonhos de excesso e rebolar na lama. Voltei a beber café com umas pingas de rotina - ou vice-versa. Dois por dia. O senhor da bomba de gasolina tem os dentes todos tortos e patudos e eu tenho-lhe muito carinho. Sempre adorei gente com características especiais que o mundo considera defeitos - quanto brilho ostentam na naturalidade com que superaram! Oh, que ternura nutro pelos gagos e zarolhas do mundo. E que indiferença secreta guardo para os ricos e bonitos, mesmo se é uma indiferença que evapora assim que tenho um deles diante de mim metamorfoseado em irmão, perdido e carente de amor, como o resto de nós.
As raparigas da bomba de gasolina usam unhas postiças (96.5% das mulheres do mundo ocidental, neste momento, usam tais deformidades de plástico sobre as mais naturalmente belas partes do corpo). Lembram-me David Lynch, a bruxa má vestida de azul, o medo e a diarreia. Mas elas adoram e sentem-se atraentes e tudo está bem. Servem o abatanado bem quente e sem açúcar.
Começo o trabalho sozinho junto com sete biliões de colónias de bactérias. É lindo. A forma como cada pão é um filho que absorve todo o nosso amor e abandono. A fúria de deslumbrar bocas futuras e alheias - sem querer reconhecimento ou agradecimento porque o que importa é roçar o divino, sem autoria, sem caprichos de autor. O supremo pão. Pão de espelta e aveia torrada. Pão de beterraba, gengibre e mel. Pão branco, humilde, elevado a uma explosão de humidade crocante não concebida pelo ancestral padeiro lusitano. A fusão do dogma lusitano com o experimentalismo franco-islandês. Se as pessoas sequer suspeitassem da quantidade de amor que meto em cada singelo pão, meu deus, largavam os trabalhos, as universidades e os amores sustentados por vaidades e matérias, e iam comer pão na orla dos riachos e dentro da boca de quimeras verdes e imensas.
O forno, no jogo da cara e da coroa, é a moeda a aterrar de lado. Adoro as pessoas à espera do pão quentinho. Ontem saiu, finalmente, uma fornada de obras-primas: estaladiços, crostas subtis, interiores húmidos e elásticos. Farinhas sem veneno e plenas de gosto. O cheiro do pão quente nas narinas do mundo. Cada dentada coito entre sentidos.
Volto quando o sol desce. Grito na via do infante como um louco porque ninguém me pode ouvir. A voz rouca como se outra alma habitasse dentro de mim. Música. Choro de agradecimento. Obrigado a todos, por tudo. Quanta sorte!
Para cima, ao sol-posto, deparo-me com os guardiões dos quinze quilómetros de terra-batida - os dois mastins que me mordem os pneus. Fingem-se hostis, mas não conseguem disfarçar que adoram a música que escorre para fora do velho Opel Morsa. Abro a janela e faço-lhes festinhas temendo que o serrenho dono julgue que eu planeio domesticar os cães para lhe assaltar a casa. Pergunto-me, também, se uma festinha na cabeça do dono levaria os mastins a pensarem que eu lhes quero assaltar as casotas e roubar os seus croquetes com sabor a frango.
Tudo isto enquanto o rádio da Morsa preenche suavemente o vale. Sou um intruso, um pássaro que perdeu a voz e rouba a voz de outros. Moondog, para o dono dos mastins, para esse agricultor perdido num vale perdido, será como uma oliveira brava a parir abóboras. Mas tudo é mato sem regras fora das cabeças.
Sem tempo para escrever, desenhar, tocar, ler, amar. A vida destrói-me com o seu abraço quente. Pela primeira vez em muitos anos apetecem-me todos os romances do mundo. Sem desrespeitar, sem olhar para traseiros ou peitos que não me pertencem. Sem estender teias. Sem permitir que o instinto de macho seja uma coisa viscosa e nauseabunda. Não procuro nada. Aceito os trilhos íngremes do destino. Recuso o arraial de drogas, sexo e loucura que explode a três quilómetros de mim, no outro vale. Apetece-me sobriedade, amor e loucura. Sempre loucura e anormalidade, por favor, por favor, por favor.
Ouço mundos, desenho, e escrevo isto. A Lua é uma lâmina aberta.
Não conheço o fotógrafo.
A preciosa lição da Dust Bowl de 1934, levada ela também pelo vento.
O ser humano é o bebé que corta o próprio cordão umbilical,
com uma tesoura de poda ferrugenta, ainda dentro da mãe.
A mesma lição a ser ignorada, neste momento,
no Algarve que me pariu.
Eu faço a minha parte, guiando para cima e para baixo,
mas recusando-me a lavar o carro.
Ecologia de bolso. Cérebros perdidos na poeira.
