Exercício de 18 de Janeiro de 2019, genuinamente improvisado. Costumava fazer exercícios destes com um grande amigo, há vinte anos atrás, em noites de inocência cibernética no mIRC. Desconectávamos, escrevíamos durante uma hora, entrávamos e saímos só para trocar os contos. Saboreávamos o fruto das nossas imaginações a fermentarem no ecrã, e depois voltávamos ao mIRC para trocarmos impressões pela noite fora, ouvindo Waits, Cohen, Cave e Pogues. Era mágico.
Este exercício durou cerca de duas horas. Faz-me lembrar a Danse Macabre, de Camille Saint-Saëns (por elementar associação com os ritmos endiabrados de um baile de bacilos). Não se transformou num bom conto, mas gostei de ouvir, na voz rouca dos javalis, mais uma meditação sobre a humana necessidade de explorar; sobre a bela palavra Wanderlust e a concepção de que esta não nasce de um capricho humano, mas sim de um clarividente mecanismo natural. O javali explica melhor que eu. Aqui vai:
Neste preciso momento decidi sentar-me como se alguém tivesse um frasco de mostarda de Dijon encostado ao meu ouvido e gritasse: Escreve algo digno, seu gato sarnento! Tens dez minutos para parir com a ponta dos teus dedos uma qualquer visão que me agrade. Livra-te de ir buscar aos baús empoeirados da memória qualquer ideia antiga. Quero um neonato de visco onírico!
O que diabos escrever, assim sem referências nem plano? O melhor será escrever absolutamente nada, tal como estou a fazer neste preciso momento, só para me soltar das garras poeirentas da inércia. Ou então posso invocar três palavras, aleatoriamente, automaticamente, e depois construir em torno delas. Vejamos: javali, congresso e Nefertiti. Ui, que raio de palavras mais parvas! Claro que podia voltar atrás e escolher outras. Mas estou farto desta asfixiante dependência de alternativas que me invade sempre que estou fraco, confuso e morto. A incapacidade de seguir um caminho, e carregar as respectivas consequências, faz-me encetar continuamente novos caminhos. Mas há que aceitar o que a vida nos dá e seguir em frente sem medo - até nas pequenas coisas. E assim concordo em construir uma história em torno daquelas três desnorteadas palavras.
Eram tempos de peste. Um caçador, sábio mas desnorteado pelos fedores da morte, soube aceitar a sabedoria da sua mulher. Esta, electrizada pelo indestructível instinto materno, rodeando com os braços as suas cinco filhas, disse:
«Vamos fugir da cidade. Vamos para onde não há gente a morrer e agonizar, porque a peste mexe-se dentro dos homens como uma corda de morte invisível que liga os vivos aos cadáveres, os tumores às bocas de quem reza, os cus roxos aos narizes que ainda respiram.»
Um Inverno precoce mas gélido e pontiagudo trazia prenúncios de outro tipo de morte. Mas o frio oferecia uma morte digna, branca, de família abraçada, sem gritos e loucura, sem entranhas explodidas. Uma manhã a família partiu para o bosque, sem medo, animados por um fervor juvenil, seguros de que escapavam da morte. Pai e mãe davam a mão com um ardor de apaixonados, como da primeira vez que o haviam feito, num Verão longínquo e feliz. A filha mais velha ficava para trás, apagando as pegadas para que a peste não os seguisse. Apagados os rastos, quando se virou para a frente, na direcção do bosque silencioso, não encontrou a sua família. O rasto dos doze pés acabava, pleno de mistério e desgraça, na neve profunda.
Os pais e as quatro pequenas formavam um círculo amedrontado e confuso. Estavam rodeados por vários javalis bípedes, estranhamente humanizados, que os fitavam com desconfiança. Ao fundo da caverna outros javalis brindavam com enormes copos de barro nas bocas, bebiam, riam. Pareciam estar a celebrar algo. Toda a caverna tinha um ar festivo. Estava plena de velas, castiçais feitos com raízes de urze, e preenchida por uma bizarra música que emanava de uma série de foles de vários tamanhos manuseados por patas cuidadosas. Numa divisão ampla viam-se pipetas, tubos de ensaio, frascos com soluções de várias cores, fogareiros, alambiques e diversas excentricidades alquímicas. Pouco a pouco, os olhos das bestas foram encontrando os humanos e os focinhos calaram-se. A música parou também. Um silêncio pesado, de interior de entranha de besta, deixou uma tensão violenta no ar. Um dos javalis, esbranquiçado pela velhice, com uma só presa na boca, disse:
«Fogem da nossa criação, não é? Fazem bem, aqui morrerão com menos dor.»
E o javali fez um gesto com o pescoço na direcção dos humanos - um claríssimo sinal de matança.
As crianças começaram a chorar, aninhadas na mãe. O pai, mais habituado a escapar aos ardis da morte, apressou-se a dizer:
«Porque devemos morrer? Nunca fizémos mal a ninguém. Respeitamos o bosque e a vida que ele contém. Arrastei o corpo dos meus três filhos, sobre pedras e lamaçais estrangeiros, para oferecer as suas carnes ao bosque. Cada manhã trago a nossa merda num balde, desde a cidade, para vir devolver ao bosque o que ele nos deu. Por acaso vão matar-nos para comer? Que necessidade move as vossas presas?»
O javali velho desenhou na cara uma careta que reveleva algum desconforto em derramar sangue. Grunhiu:
«Não queremos matar-vos, mas sim permanecer vivos. O homem carrega nas patas um poder demasiado grande. Podemos confiar em ti, mas os teus filhos já virão devorar o mato e matar tudo o que nele habita. As gerações dos homens seguem perigosos padrões alternantes. O filho renega o pai, e o neto retorna ao caminho do avô. É impossível confiar em vós porque a Grande Mãe, sempre sábia, vos incutiu a eterna necessidade de novidade. Ela percebeu o vosso potencial destructivo e condenou-vos a vaguear pela infinita colina do horizonte. Mas vocês quebraram o pacto, e decidiram parar e matar, cortar, queimar, escravizar bichos e plantas. Por tudo isso devem morrer, para que o resto dos bichos possam viver.»
Seguiu-se um silêncio pesado, pleno de hálitos ancestrais. Depois o velho javali acrescentou:
«Quase cumpriram a profecia das cinco virgens mas, infelizmente, apenas aqui estão quatro.»
A mãe, desatenta há muito, sentiu a conversa convergir contra o motivo da sua preocupação. Havia hesitado em revelar a existência da quinta filha - antes essa pobre morresse de frio que devorada. Mas as palavras da profecia fulminaram-lhe o medo. Gritou:
«A quinta virgem morre de frio, por cima das nossas cabeças! A profecia cumpre-se! Subam!»
Um dos javalis apressou-se a subir a rampa e reparou que o alçapão por onde a família caíra estava encravado com um galho. Uma sucessão de murmúrios contagiou os focinhos que se amontoavam em torno da esperançada família. O javali abriu o alçapão, espreitou para fora e com o focinho branco de neve gritou, primeiro para fora, depois para dentro:
«Entra, mulher, depressa! Irmãos, a quinta virgem corre em torno do covil! A profecia cumpre-se!»
Mas subitamente ouviu-se um ruído arenoso e um cheiro pestilencial invadiu a caverna. Aquilo que desceu a rampa não era nem virgem nem gente. Era uma torrente de visco negro e nauseabundo. Era a peste, adolescente mortal e jovial, que não encontrava melhor maneira de honrar os seus porcinos pais do que infectando-os também.

Busto de Nefertiti roubado ao Egipto, a Tutmés e às areias do tempo.
Apaixonei-me por essa mulher em pequeno e, ao longo dos anos,
já sonhei e conversei com ela inúmeras vezes.
Quando a vi em Berlim chorei como um mimo estrábico.
Se Nefertiti nada me ensinou sobre o amor (isso só acontece com rostos tépidos),
ensinou-me bastante sobre o poder da imaginação e do sonho.