Como aquela comida favorita que, devido ao orgulho de criança, menosprezámos durante anos. E como aquele caminho tão familiar que nunca tomámos, por algum motivo insondável, e que afinal nos leva a maravilhas inesquecíveis. Como aquele livro que nos espreitou de inúmeras prateleiras acumulando as poeiras do quase, ansioso por nos saltar para o colo, e que quando finalmente nos oferece as suas páginas se revela revigorante banho de mar em escaldante Agosto de desinspiração. Ou como aquele velhinho que sempre cumprimentámos com um sorriso, desde pequeninos, e que finalmente um dia nos preenche a alma com meia dúzia de palavras fulminantes e deliciosas que fazem ninho no nosso crânio, para sempre, para que um dia mais tarde sejamos nós o velhinho que oferece palavras a quem delas precisa que nem fogo sagrado e circular que aquece as cavernas do existir.
Neste caso, o incidente que inspira estas desinspiradas palavras é um dos livros que refrescava as minhas insónias universitárias. Nesses tempos eu dormia muito pouco e corria atrasado para o autocarro, todas as manhãs, com rabiscos debaixo do braço e o livro na mochila. O Livro do Desassossego. Era um livro que eu ainda não conseguia decifrar completamente mas que revelava uma qualquer substância narcótica e impalpável que me parecia mais palpável que a própria realidade. Porque eu não encaixava naquela universidade, nem nas etílicas noitadas académicas, mesmo se tudo evoco com gratidão. As noites mais memoráveis desse período foram passadas em fuga, com poucos mas bons, em tabernas escuras ou fábricas abandonadas, a contar histórias e sondar desassossegos, a fotografar ou a desenhar com carvão nas paredes abandonadas onde outrora fervilhava a vida. Os dias interessavam menos e deslizavam para onde tinham de deslizar - porque a maior fuga à sufocante normalidade consistia em fugir à fuga das massas, em remar contra marés etílicas em jangadas de fumo e música clássica. Foram tempos de riso leve e filosofia imberbe mas intrépida.
Agora, treze anos depois, voltei a mergulhar na prosa de Bernardo Soares. Mas mergulhei de cabeça contra uma rocha escondida: uma edição estrangulada pelo infame Pato Ortográfico (sim, Pato). Enojado, pus o livro de parte, mas o apelo das suas águas foi irresistível e nele já encontrei, entre muitos outros tesouros, uma assustadoramente precisa descrição de um dos meus demónios. Poderia tal descrição só me interessar a mim e portanto não necessitar de cavalgar para fora do coração no dorso de corcéis alfabéticos, mas acontece que essa entrada define muito bem o calcanhar de Aquiles das gerações digitais. É assim:
E assim sou, fútil e sensível, capaz de impulsos violentos e absorventes, maus e bons, nobres e vis, mas nunca de um sentimento que subsista, nunca de uma emoção que continue, e entre para a substância da alma. Tudo em mim é a tendência para ser a seguir outra coisa: uma impaciência da alma consigo mesma, como com uma criança inoportuna; um desassossego sempre crescente e sempre igual. Tudo me interessa e nada me prende. Atendo a tudo sonhando sempre; fixo os mínimos gestos faciais de com quem falo, recolho as entoações milimétricas dos seus dizeres expressos; mas ao ouvi-lo, não o escuto, estou pensando noutra coisa, e o que menos colhi da conversa foi a noção do que nela se disse, da minha parte ou da parte de com quem falei. Assim, muitas vezes, repito a alguém o que já lhe repeti, pergunto-lhe de novo aquilo a que ele já me respondeu; mas posso descrever, em quatro palavras fotográficas, o semblante muscular com que ele disse o que me não lembra, ou a inclinação de ouvir com os olhos com que recebeu a narrativa que me não recordava ter-lhe feito. Sou dois, e ambos têm a distância — irmãos siameses que não estão pegados.
Pessoa assim escrevia e sentia, talvez, devido ao imenso caudal da sua genialidade. A criatura digital reparte-se em mil destinos porque é invadida diariamente por homicidas torrentes de informação; ou porque a cada passo pisa uma bomba de venenoso marketing; ou porque esta sociedade obcecada pela competição gera egos e inseguranças monstruosas que nos fazem levantar mil perguntas e padecer três mil novecentos e quarenta terrores. Este rascunho de exorcismo é um escape a tudo isso mas, comicamente, ao escapar deparo-me com múltiplas encruzilhadas criadas por cada passo que pretende escapar.
A estonteante liberdade da criatura digital é também a sua prisão. Nasci em 1981, saboreei bem o idílico mel analógico, e mesmo assim sofro dessa ânsia de tudo querer. Ainda quero aprender tudo - eis que acabo de chegar de um curso de roda de oleiro, inflamado por mais uma paixão, desnorteado uma vez mais, querendo mergulhar na volúpia da terra molhada e fértil. Quero tudo.
Há quatro anos atrás, num momento de insuportável indecisão, cheguei a procurar vôos, sem saber para onde ir, para a Noruega, Islândia, Marrocos, Moçambique, Malásia, Bolívia, Colômbia e Peru. Desesperado, atribuí a cada destino um número e tirei à sorte. Calhou-me o Peru, a selva e o reencontrar-me, o adormecer no olho do furacão.
No meio de titânicos bosques e desertos de beleza estonteante também conheci microscópicos esporos de fome, doença e guerra. Pude aferir bem a extensão da minha sorte. Mas a peste digital baralha qualquer instrumento metafísico ou cultural e as notícias e o omnipresente medo metem-nos sobre as costas, nada mais, nada menos, do que o peso do mundo inteiro!
Por tudo isto carrego dois recados no interior dos olhos. Um diz: obrigado. O outro diz: sorri, relaxa, és apenas um animal. No ouvido derreto coisas como isto e bailo nu em catedrais enferrujadas. Cada dia é um milagre!
Josef Koudelka.
Fotografia de uma ponte que ainda vai ser.
