Hoje escrevo para vocês, caros sobrinhos, porque sou frequentemente invadido pelo peso daquilo que deixarei para trás. Há livros nas minhas estantes, e desenhos e textos nos meus cadernos, que requerem que vocês me entendam a um nível mais profundo - para evitar mal-entendidos ou influências nefastas. Ainda é cedo mas, daqui a uma década, quando explorarem o mausoléu abandonado daquilo que eu fui (o quarto da casa materna que esconde, nas suas gavetas e estantes de Pandora, o espólio das minhas explorações), vão compreender a importância destes humildes textos.
Detrás das mãos não há franzir moralista. Há riso. E isto.
Poderia cortar o mal pela raíz e queimar todos os meus cadernos. Mas nas suas páginas, em cavernas de lixo e guetos de desinspiração, também moram preciosas entidades de riso e sabedoria que as minhas mãos deram à luz - as minhas ignorantes mãos, meras marionetas, movidas pelos fios do mundo, pela beleza que me inspirou e por toda a gente que conheci e amei.
Talvez, em momentos de fraqueza e estupidez, eu tenha considerado banais algumas das vidas que se arrastam à minha volta pelas ruas, perdidas e amedrontadas, atascadas no lodo digital, definhando em conforto mórbido, ansiosas por comer quatro vezes mais do que necessitam e obcecadas, sabe-se lá porquê, em verem estranhos a morrerem e copularem em ecrãs. Quando lúcido, nem preciso de compreender que essas gentes merecem toda a compaixão e respeito - porque já carrego esse respeito nos ossos, porque a minha alma está encharcada no estado natural de respeitar e amar tudo (até a morte). Quando a lucidez me escapa, sou como eles.
O povo amedrontado é vítima de um monstruoso sistema milenar de expropriação e controlo e, mesmo agrilhoado, adormecido, é capaz de actos épicos e profundamente inspiradores. Não levem a sério qualquer sistema de classificação que encontrem em quaisquer páginas do mausoléu ou do mundo. Ninguém está acima de ninguém. E aquele que, ébrio com os vapores do ego, se julga acima de outrém, é precisamente quem vai chafurdar na lama humana e tornar-se, enquanto permanecer iludido, em algo inferior e daninho.
A minha personagem, o meu trajecto ou o meu fluxo criativo, tiveram momentos banais e excepcionais. Pouco importa o que fui ou fiz. Se parto para a partilha do que fui ou fiz, faço-o porque compreendo que se a infância me houvesse brindado com um tio que desenhasse comigo e me contasse histórias de terras longínquas, e que povoasse os meus dias com exóticas quimeras da imaginação, eu seguramente quereria sondar os seus cadernos secretos quando ninguém estivesse a olhar. Tal como eu gostaria de ler os cadernos do meu querido avô, do tetravô escocês ou da decavó que se abandonou a um árabe na suite nupcial de uma alfarrobeira; como seria bom folhear o caderno de desenhos dos marsupiais perdidos, remotos antepassados, que mantiveram viva a chama dos mamíferos depois da extinção do Paleozóico; ah, pequenotes, imaginem a poderosa simplicidade do caderno de viagem da primeira criatura a emergir do musgo primordial!
Apresso-me a escrever isto, em vez de o partilhar frente a frente, ao sabor dos anos, porque desde que existo que suspeito que vou morrer a qualquer momento. Suspeito sem medo, sem stress, mas com uma certeza fortalecida pelos incontáveis episódios em que escapei aos lábios da morte virando a cara no derradeiro momento. A minha atracção pela beleza é incontrolável, a minha temeridade demasiada cega, e a minha capacidade para me distrair é prodigiosa. Também reconheço alguma inocência e estupidez. Quando conduzo em estradas desertas, em que não espreita o perigo de magoar outrém, a minha mente descola lentamente do alcatrão e parte para lugares inconcebíveis. Quando a visão de outros carros, ou de qualquer criatura, me traz de volta à realidade, surpreendo-me a conduzir por terras estranhas, ou em atalhos errados que, por vezes, estão preciosamente certos.
Não, meus pequenos, não tenho nenhuma incapacidade mental involuntária - as loucuras que permito têm a minha estima e aprovação e posso defendê-las com argumentos rijos e pontiagudos de que pouquíssimos se saberiam desviar. Simplesmente, procuro perder-me e amo quem se perde. Reconheço o saborear da novidade como um precioso mecanismo primordial de nomadismo - de equilíbrio ecossistémico - que se desvirtua no centro comercial ou diante de ecrãs, mas que, quando despoletado nos meandros da vida, é uma poderosa experiência mística. A fusão entre a novidade e a satisfação de necessidades instintivas básicas (comida, bebida, repouso, abrigo, ar ou amor) é a maior fonte de magia que conheço. Por isso, com prudência mas sem medo, percam-se sempre que puderem. Ainda há cumes e abismos, por todo o lado, onde não espreita plástico nem postes de electricidade. Procurem-nos, banhem-se nus, comam o que houver por lá (evitem pedras, esterco e cogumelos venenosos), apaixonem-se, e agradeçam.
Sobretudo, tenham muito cuidado quando não estão perdidos. Cuidado com as regras e academismos do existir, com as rotas exploradas, os cronómetros e as hierarquias. Cuidado com os tops, os bestsellers, os virais, os comerciais, com o sucesso e a procura de fama. Aí, sim, residem os mais peçonhentos dos perigos. Lembrem-se que a vida é demasiado curta e preciosa para nos cansarmos a arrastar às costas os olhos e opiniões dos outros. Questionem, também, a minha opinião. Encontrem o vosso próprio caminho.
Paciência, estou quase a acabar.
Resta apenas explicar-vos que não sou irresponsável. Quando a conduzir ouço o grito da realidade materializo-me com adequada prontidão e desvio-me de gatos, coelhos, borboletas e ouriços. Olhando pelo retrovisor da vida, felizmente, vejo que nunca deixei o meu sonhar magoar algo além de mim. Por mim, pela minha integridade, é mais difícil retornar à realidade ou tomar controlo do volante. Por mim deixo-me despenhar pelo abismo que me deslumbra os sentidos - mesmo se aprendi a preciosa lição de tratar-me a mim próprio como se fosse outrém, com todo o respeito e amor. Nesta tendência não há qualquer resquício de masoquismo ou fascínio pela morte. Amo a vida. Deixo-me despenhar apenas porque não temo, por apatia, ou porque acredito em caóticas e explosivas metamorfoses de energia. Aconselho-vos a evitar essa perigosa forma de indiferença. Eu estou a aprender a fazê-lo, finalmente, porque há que agradecer em pleno o milagre da vida.
Em estado de ignorância (ou sabedoria) afirmo que sou imortal, caros sobrinhos, como tudo o resto. Tudo é aproveitado pela grande centrifugadora do Cosmos. Mas será difícil convencer as setecentas formas de vida que assimilarão os adubos da minha putrefacção a pegarem em conjunto numa caneta e a escrever-vos tudo isto. Por isso, aqui estão, estas irrelevantes mas felizes palavras.
Bruegel. Grande Bruegel.
