Adiante transcreverei, em português coberto de salitre, um fragmento da beatífica descrição das maravilhas do Reino da China pertencente à colossal Peregrinação de Fernão Mendes Pinto. O autor descreve a grande fartura das terras dos Chins e explica como estes têm de seguir escrupulosamente o míster que lhes compete. Quem vende peixe não pode vender carne e por aí adiante. Mas aquilo que mais me fascinou foi a forma tão bonita, tão inocente, como Fernão Mendes descreve as barcaças de adens (adẽs) e a forma como os criadores dessas aves as libertam, ao som de tambores, para que estas comam e ponham ovos, e como as margens ficam brancas com tanto ovo.
A minha leitura desse fragmento foi adocicada pela minha ignorância quanto ao que eram adens. Imaginei galinhas, depois um mistura de peru com galinha-de-água, depois pequenos patos com chapéus de chinês. Afinal os adens são patos, patos apenas, mas em nenhum lado li que não tinham chapéuzinhos na cabeça portanto para mim, até ao dia em morra e deslize para a Côncava Funda do Lago da Noite, os adens são patos chineses com pequenos chapéus de chinês na cabeça. E imagino o David Attenborough, esse maravilhoso avô da raça humana, a falar para a câmara com adens no seu colo.
Depois imagino uma barcaça com milhares de pequenos David Attenboroughzinhos com diminutos pith helmets na cabeça que saiem das barcaças ao som de tambores para realizar os seus pequenos documentários. E de como os filmes são deixados debaixo de esterco quente para germinarem numa planta gigante e telescópica que projecta na Lua qualquer documentário que possamos pedir. Podemos ver, filmado em Super 8, os muitos episódios da Guerra de Tróia, Fernão Mendes boquiaberto a observar a sua primeira barcaça de adens, o rosto de António de Faria, Dom Sebastião a escapar da batalha, a fugir Sahara abaixo, e mais tarde a descansar a cabeça no colo de uma negra, ouvindo os morcegos do Bintang Bolong; ou então vermos o Big Bang, a morte do Sol, a verdadeira estrutura do átomo, a superfície de Júpiter diante da sua tempestade secular, a sopa primordial, o primeiro mamífero, o cometa que matou os sáurios, civilizações distantes e daltónicas, galáxias a serem tragadas; ou então Cleópatra e Marco Aurélio a banharem-se no Nilo depois de fazerem amor, as orgias na corte de Louis XIV, o nosso próprio nascimento ou outras coisas que apenas um tolo quereria ver.
Tudo isto enquanto ouço isto, que está mesmo a acabar, portanto aqui vos deixo os adens. Ouço a segunda composição e imagino os adens a sairem das barcas, lentamente, e não consigo não chorar. Porque tenho muita saudade das pessoas com quem partilhava este tipo de mundos tresloucados mas plenos de riso e inocência. Onde andam? Onde estou? Porque é que, de repente, tudo ficou tão sério? Onde andam os loucos? Onde está a barcaça de loucos que obedeciam aos tambores da liberdade? Eu ainda estou aqui, muito feliz, mas a começar a sentir-me só. Não se trata de ter putos ou não, crescer ou não, ter responsabilidades ou não. Trata-se de rir. A benção do homo sapiens não é o polegar oponível nem a capacidade de explodir mundos. A nossa benção é rir e parir poesia de carne ou tinta.
É lua nova. Amanhã vou enfiar metais nos dentes e durante dois anos não posso viajar! Contudo, vou deixar a cidade e voltar a plantar sonhos e comida boa na fértil Serra Algarvia que me corre nos ossos. Assim que ganhar raízes em algum sítio a primeira coisa que vou fazer, juro, é arranjar adens.
Ha tambem ao longo deste grãde rio da Batampina por onde fizemos este nosso caminho da cidade do Nanquim para a do Pequim, que he distancia de cento & oitenta legoas, tanto numero de engenhos daçucar, & lagares de vinhos & de azeites, feitos de muytas & muyto diuersas maneyras de legumes & fruitas, que ha ruas destas casas ao longo do rio de hũa parte & da outra de duas & tres legoas em comprido, cousa certo de grandissima admiração. Em outras partes ha muytos almazẽs de infinidade de mantimentos, & outras tantas casas como terecenas muyto compridas, em que chacinão, salgão, empesaõ, & defumão todas as sortes de caças & carnes quantas se criaõ na terra, em que ha rumas muyto altas de lacoẽs, marrãs, toucinhos, adẽs, patos, grous, batardas, emas, veados, vacas, bufaros, antas, badas, caualos, tigres, caẽs, raposos, & toda a mais sorte de animaes que a terra cria, de que todos estauamos taõ pasmados, quanto requeria hũa tão noua, tão espantosa, & quasi increiuel marauilha, & muytas vezes deziamos que não era possiuel auer gente no mundo que pudesse acabar de gastar aquillo em toda a vida. Vimos tambẽ neste rio grande soma de embarcaçoẽs como fustas, a que chamão pauouras, fechadas de popa & de proa com redes de canas como capoeyras, de tres & quatro sobrados, de dous palmos dalto cada sobrado, cheas de adẽs, que homẽs trazião a vender, os quais vão pelo rio acima a remo & a vella, ou como querem, vendendo estas adẽs que trazem por mercadaria. E quando vem que he tempo de lhe darem de comer, se chegão a terra, & onde o campo he mais brejoso, & cõ algũas alagoas dagoa, poem pranchas em terra, & abrẽ as portas daquelles sobrados, & dando quatro pancadas nũ tambor, todas estas aues, que saõ de seis sete mil para cima, com hũa grãde grita se saem fora da embarcação, & todas de corrida se vão meter no charco da agoa que està no campo. E passado o espaço em que ao dono lhe parece que ellas podem ter comido, torna a tanger o tambor, ao som do qual, todas com a mesma grita se tornão a recolher â embarcação donde sayraõ, & cada hũa vay demandar o seu sobrado sem faltar hũa só, & partido daly se vay seu caminho. E quãdo vè que he tempo para porem, se torna a chegar á terra, & onde vé o campo enxuto, & de boa relua, abre as portas dos sobrados em que as traz, & torna a tanger no tambor, & em o ouuindo se saem todas à terra para porem. E passada hũa hora de tẽpo ou aquelle espaço em que lhe a elle parece pouco mais ou menos que ellas podem ter posto, torna a tocar no tambor, & ellas se tornão logo todas muyto depressa a recolher à embarcação, sem, como digo, ficar hũa só no campo, como saõ recolhidas dẽtro na embarcação, o dono com outros dous ou tres que traz comsigo se vão a terra com alcofas nas mãos, & chegando à relua onde as adẽs puseraõ, que está toda branquejando cos ouos, os recolhem nas alcofas, & se tornaõ a embarcar, & não ha dia em que naõ enchaõ dez & doze alcofas, & com isto tornaõ a seguir seu caminho, vẽdendo esta sua mercadaria. E quando ja vem a ter poucas adẽs, & se querem reformar de outras, as vão comprar a outra gente que tambem viue de as criar & vender por junto a estes regatoẽs, que as não podẽ criar como estoutros, porque como ja disse, ninguem trata em mais que naquillo que lhe foy concedido por licença da camara. E estes que viuem de criar estas adẽs tem junto das casas em que morão hũs charcos dagoa em que trazem dez doze mil adinhos hũs mayores & outros mais pequenos: & para tirarem os ouos tem em hũas casas como terecenas muyto cõpridas vinte trinta fornalhas cheyas de esterco, & nelle soterrão duzentos, trezentos & quinhentos ouos juntos, & tapãdo as bocas das fornalhas paraque o esterco esteja quente, os deixão assi estar ate o tempo que lhes parece que podem ja ser para sayrẽ, & metendo então em cada hũa destas fornalhas hum capaõ meyo depennado, & ferido nos peitos, lhe tornão a cerrar a porta, & daly a dous dias os tem o capão todos tirados fora, & então os poem debaixo de hũs couãos que ja para isso tem feitos cõ seus farellos molhados dentro, & assi andão dez ou doze dias soltos até que elles por sy se vão meter nas alagoas em que se acabão de criar, & se fazem grandes para os poderẽ vender a estes regatoẽs que digo, que de veniaga os leuão para diuersas terras, os quais, como ja disse, os não podem criar como estoutros que lhos vendem, so pena de serem por isso açoutados, porque no que hũs tratão não hão de tratar outros que tratem noutra cousa. E tanto he isto assi, que nas ruas, & praças ou lugares onde se vendem estas cousas de comer, se ao que vende ouos de adem lhe acharem ouos de galinha de que se presuma que os tem para vender, logo aly onde o tomão, com a falsidade lhe dão trinta açoutes nas nadegas, sem ser ouuido por nenhum caso, & se os quiser ter, para não cayr na pena, haos de ter meyos quebrados por cima, porque pareça que os tem para seu comer, & isto que he de hũs he tambem dos outros nem mais nem menos.
Trata-se de uma fotografia aérea da Islândia, tirada por Tom Hegen.
A foto não tem, creio, qualquer tipo de manipulação.
Para mim são adens a prepararem-se para por ovos à volta do quentinho Hekla.
