Espasmo de Partida


pretendia responder ao problema que encetámos mas acabei por dispersar um pouco. a memória fez-me refém. desculpa o incómodo. foi assim:

depois da overdose de olhos colados em luz e plástico que foi licenciar-me em design de comunicação e prostituição de intelecto em prol de assassinos tentáculos capitalistas que sobem pelo cu das pessoas acima para lhes torcer o juízo e as obrigar a comprar merdas inúteis que jamais necessitarão decidi não saber o que fazer com a vida.

passei um ano a ouvir música indie, a malabarar bolas, a fabricar pão e a escrever contos violentos e pornográficos que não passavam de rebeldia cega e inócua de menino burguês mimado.
quis o destino que me lembrasse da professora de animação a falar de ter apanhado morangos na Dinamarca mas não sei como o que encontrei na internet (em itálico, porque ainda me custa inserir palavras destas numa narrativa) foi a possibilidade de vindimar na França. a ideia soube bem. nesse estio houve Paredes de Coura para me despedir para sempre de música indie, Sines para abrir para sempre a porta das músicas do mundo e Avante para me despedir da mulher que mudou a minha vida.

agradeci a essa preciosa mulher como um horripilante imbecil de 25 anos poderia fazer: enrolando-me nas vinhas de Beaujolais com uma deslumbrante criatura belga. novos tipos de suavidade e murmúrios ao ouvido. tudo era irresistível. tudo começou com um barril de vinho e uma caminhada nocturna pelos campos de França a cantar Pogues. as vinhas eram camas infinitas onde todos se podiam deitar. nesse momento decidi jamais me comprometer na vida - todos os amores seriam supernova de carne e memórias. andei três meses pela Europa a ver museus de pintura e escultura clássica e concertos de jazz. muito álcool, algum fumo, amores que o patinho feio do passado não poderia conceber porque desconhecia o poder de não haver nada a perder.

perder-me de madrugada por capitais incógnitas, sem smartphone, sem mapa, com uma caneta na mão quando atravessava bairros perigosos, a rir, sortudo do caraças. ainda me lembro do gato preto pendurado, a ondular com o vento, num imenso lençol branco da vila pescatória da Ligúria. e o gato é grão de areia num imenso areal de poesia. o museu do Rembrandt depois de fumar, meu deus! e as horas a caminhar pela pele nua de urbes adormecidas, esfomeado e cansado mas a pulsar, à procura da cama.

a carnal aliança luso-finlandesa numa escola belga desertada durante o fim de semana - o guarda nocturno, neste momento, está também a recordar as imagens loucas que os cogumelos e o amor desenhavam nas câmaras de vigilância. cânticos de ninfa a ecoarem pelas escadas, a atraírem-me para a escuridão. compreendo hoje que a aparição do guarda, caso se houvesse manifestado, teria fulminado o coração da minha pessoa nua e alucinada.

saí da universidade com óculos mas no ano seguinte, na Dinamarca, a dietilamida do ácido lisérgico curar-me-ia os olhos. até hoje. olho para os óculos e rio-me (com o riso novo, límpido, destemido, que a dietilamida do ácido lisérgico me deu). foram dez anos fartos de viagem, amizades de ouro, amores tempestuosos e algumas experimentações psicadélicas transcendentais.

aqui não posso falar de África, nem da selva, nem de mais um início de tudo. porque no fundo tudo o que pretendo contar-te é que durante uma década praticamente não usei a internet, nem redes sociais, nem queria saber do estado do mundo. o mundo estava à minha frente e eu ajudava quem os meus olhos ou ouvidos reconheciam como alguém que necessitava de ajuda - não precisava de conhecer milimetricamente a extensão da miséria do mundo, nem conhecer as caras de todos os náufragos que jamais se afogaram. deambulando precisei de ajuda e ganhei a humildade de reconhecer isso. fui desmesuradamente feliz. nunca me bateram, nunca me roubaram, e os poucos insultos racistas da Europa fizeram-me rir.

acontece que antes de partir para a Islândia comprei um laptop, para escrever, e de repente comecei nem sei como a ver o que se passava nos jornais online e nas redes sociais e... meu deus. quanto ódio e loucura pelo mundo!

privado da caça, da recolecção, dos tramontos em cheio na cara e da brisa do mar, o ser humano decidiu odiar-se como passatempo e ganhar um tribalismo assassino negro branco esquerda direita nazi comuna filho da puta tu é que és, bem, uma coisa alucinante. só medo e ódio. as crianças portuguesas estão estritamente proíbidas de saírem à rua para jogar à bola que nem bárbaros e devem permanecer fechadas em apartamentos colados a tablets e a joguinhos idiotas ou a dar os primeiros passos no desfiladeiro do ódio nas secções de comentários ou a amaldiçoarem-se com venenos pornográficos, que queridos. é de pequenino que devemos torcer o pepino e espezinhá-lo e enfiá-lo num tupperware cheio de coca-cola e deixá-lo morrer sem sol nem luz. aprendamos com a mãe de Noël, Joël e Citroën, que meteu os filhos numa gaiola para que nada de mal lhes acontecesse.

pois bem, estou vazio, farto, atolado em cimento e fumo, e no fim deste mês vou abandonar novamente a maldição tecnológica. não totalmente - porque não acredito em extremos - mas em boa medida. o computador vai ser um fiel companheiro de escrita e vai estar desligado da world wide web. smartphone nunca tive, nunca me envolvi muito com modernices (afinal de contas, já não sou quem se licenciou em design). vou esculpir madeira, sonhar e cavar. da terra vão sair coisas deliciosas e sãs.

não posso viajar durante dois anos porque tive de enfiar metais nos dentes e há uma manutenção mensal que é prisão. não posso ir arriscar a vida em abismos nem procurar toneladas de saliva suave e fugaz. vou enlouquecer. e voltar à cidade e fugir para o campo. vou começar a esculpir barro e desistir frustrado. vou-me sentir velho e morto. vai-se acabar o dinheiro da Islândia e vou exercer alguma profissão inglória. talvez possa ser sentinela de fogos no meio da serra e ser engolido por um livro, sem dar alarme, enquanto o país arde e se metamorfoseia em Sahara. vou renascer e correr pela serra em dias de chuva. vou ver figuras e civilizações a nascerem e morrerem na luz vermelha da salamandra acesa. vou deixar o medo roubar-me amigos uma vez mais mas vou aprender. vou ver como toda a gente tem uma terra e projectos interessantes mas a mim resta-me a penúria/riqueza de Thoreau: ter com os olhos portanto não necessitar de ter nem de carregar o peso da posse. depois, vai também acontecer tudo o que menos espero e tudo o que não posso, nem quero, saber.

saúde, papa, água, tecto, gente, amor e poesia. tudo o resto são mentiras.

nunca descontei para a segurança social. nunca pedi nada ao estado excepto guarida para o coração ferido deste Verão. paguei muito IVA na vida, não sinto que deva nada. não vou ter reforma. a terra vai aconchegar o meu cadáver e cuidar das necessidades que já não existirão.







Fotografia de Artur Pastor.
Gostava de ter todas estas escadas
e viver nas ruínas de uma cidade, biodegradável e vazia,
e na intimidade das árvores onde te encontraria
a ti
que nem conheço.