As caravanas ladram mas o cão não passa. Está difícil zarpar das escarpadas encostas de cimento da Babilónia. Mas a lua enche e Ozymandias (o de Shelley) uiva debaixo da sua curtíssima manta.
Agora, fecha os olhos e lê ao mesmo tempo. Imagina uma nau lusitana antiga, lambuzada de alcatrão, vela branca imaculada. O porto cheira a mar, vómito e saudade. Sem saíres do porto imagina ao longe um manicómio oitocentista a disparar - com o canhão otomano que decora o seu amplo jardim - o mais extravagante dos seus loucos e este a aproximar-se, lentamente, e a embater nas velas suaves do barco e a deslizar até ao convés. De olhos sempre fechados, ainda a ler, sentes o calor dos corpos de marujos nus e embriagados que dão saltos e gritam vivas ao louco que foi nomeado capitão. Sentes o hálito avinagrado de bocas com peixe podre alojado em cavidades dentais. Há capitão! Há capitão e este ordena que todos se deitem cedo porque a alvorada trará a partida para novos portos fluorescentes. Todos obedecem e tudo, cada som, cada imagem, parece sussurrar promessas de prosperidade.
Mas durante a noite entidades secretas roubam as velas, serram o mastro e injectam caruncho atómico na quilha. Levam a pólvora e deixam o estrume do medo. De madrugada a tripulação decide encher o convés com um palmo de gasolina e as cavernas da alma com aguardente de medronho. Decidem malabarar tochas acesas, com os olhos vendados, no topo de mastros besuntados com sebo. O capitão, entusiasmado, manda levantar a âncora. O sol nasce. As tochas voam. O mar é gasolina turva onde nadam peixes indestructíveis que não comem há três dias. O barco sou eu, amanhã, dia dezoito de Fevereiro de dois mil e dezanove.
Mas claro que parto à gargalhada, ouvindo música linda, estranha e inconcebível, levando no peito preciosas sementes de esperança. Porque duas ou três rajadas de sol depressa transformam o mar em mar e o capitão em macaco sadio. Não me importa afundar porque os manatins me garantiram, em sonhos, que o fundo do mar é uma imensa tela de Rembrandt, iluminada pelos peixes do abismo, que reconta todos os segredos do tempo. Os beijos das sereias oferecem oxigénio de vinte e quatro quilates ou, aliás, oferecem todos os elementos da tabela periódica e fazem germinar nos nossos ventres novos e mirabolantes cosmos. Manatins voadores de veludo que nos transportam pelos céus com orquestras de música de câmara no dorso. Deslizar da estratosfera até Niagaras de mel por entre os cabelos perfumados de uma ninfa colossal.
No fundo, creio que este texto nasceu porque tu julgaste que a extravagância das minhas palavras nascia do consumo de substâncias. Na verdade, depois de algumas experimentações psicadélicas no meio das duas primeiras décadas do milénio (2005-2015), deslizei com naturalidade para um estado de liberdade química. Nessas arestas experimentais fumei tabaco durante sete anos mas deixei-o sem problemas. O etílico John Barleycorn - o diabrete que me acompanhou desde os treze anos, em épicas e desregradas expedições - passou a visitar-me muito raramente, para um ou dois copinhos de tinto, a conversar com amigos. Deixei de procurar a Maria desde uma mágica noite, na savana do Mali, embebida em tambores invisíveis e presságios translúcidos que não consegui suportar, há quase dez anos atrás. O café, essa substância preciosa, passou a ser um ritual sagrado destinado à contemplação de fenómenos atmosféricos especiais. Confesso apenas uma excepção de ano e meio, na Islândia, plena de öl artesanal e café pela noite dentro, sorvido na padaria deserta enquanto nevava na rua. E também aqueles cafés providenciais, antes de pedir boleias, nas bombas de gasolina que pautavam as febris explorações daquela ilha que era um corpo imenso, fabuloso, enregelado mas fervente.
O que te queria dizer é que as minhas palavras não me pertencem. Se elas correm e saltam pelo prado da minha existência eu nem reclamo méritos nem carrego culpas por aquilo que elas formam diante dos olhos do mundo. Eu apenas tento fazer com que elas não corram a despenhar-se em abismos de fealdade ou maldade. Sim, admito, também tento orientá-las para os prados da beleza e do riso, para uma sabedoria fresca e maleável. Mas não me permito domesticar as palavras, nem empurrá-las para fórmulas ou dogmas, para a trajectória das balas fulminantes dos caçadores de liberdade. Deixo as minhas palavras, que não são minhas, deambularem selvagens e sadias.
Acontece que muitas mentes se transformaram em cidades duras, inflexíveis, que só admitem a visão da besta domesticada pelo cânone. E os bichos selvagens também reagem mal à barulhenta esterilidade do cimento - marram contra os carros, escorregam na calçada e entalam-se nas portas giratórias dos centros comerciais abandonados.
Em nenhum momento pretendo insinuar que há alguma superioridade ou genialidade nas minhas palavras, ou qualquer inferioridade ou imbecilidade nos teus olhos ou nos de outrém. Digo apenas que o mundo, morbidamente obcecado pelo conforto, está a perder a paciência para o bizarro, para o indomado, para os cantos rugosos da alma. Nada mais.
No teu caso, não creio que me tenhas julgado a mim ou às minhas palavras. Vejo a tua mente como resina - maleável ou dura consoante a necessidade. Apenas percebi que, sem me julgares, julgaste que a fonte dos meus desvaneios era química. Mas não, o que me embriaga é o generoso fermento da vida. Talvez te tenha percebido mal porque, confesso, tive dificuldade em decifrar a tua letra. E a chuva havia borrado algumas partes e criado deslumbrantes cosmos de tinta e mistério.
Sinceramente, não sei como poderemos comunicar usando pombos. Há uma columbófila no bairro mas, sinceramente, sinto-me um pouco intimidado em abordar os magníficos espécimes que a povoam. Conheço alguns e admiro-os. São gente dura, translúcida, com sangue antigo, predispostos à navalhada. Neste momento a cidade inflexível que mora no meu crânio tem medo daquelas vozes selvagens e violentas.
Esquecemo-nos, nós criaturas humanas, que todos somos bons nisto, maus naquilo, fortes num momento, fracos noutro. O tempo é como uma manta curta que não pode cobrir os pés e a cabeça ao mesmo tempo. A compreensão é uma manta infinita que todos se recusam a usar.
Josef Koudelka, 1985.
Desconheço o título.
Para mim é uma das mãos de Ozymandias.
