Querido diário,
O ano rompeu dentro dos crânios enquanto eu me perdia a
girar numa caixinha de música que, em vez de abrigar uma bailarina a rodopiar,
continha o decepado polegar do medo. Mas subitamente, quando tudo parecia
negro, eis que sinto na face o beijo tímido de um lémur de cauda anelada. Tal
fantasma veio perdoar a humanidade pela sua loucura e garantir-me que, depois
das extinções, as entidades animais extintas costumavam reunir-se para beber
infusões quentes debaixo de mantas, em frente a lareiras colossais, e trocar
carícias, ver filmes japoneses poeirentos e decidir como repovoar a Terra. Eu
segredei ao lémur uma humilde ideia: inventem um homo sapiens com o campo gravitacional invertido, que trará novas perspectivas, mui cómicas histórias de
amor, e fará rir o fantasma de Chagall. O lémur agradeceu mas lembrou-me que eu
já tinha usado a gravidade invertida noutras visões, várias vezes. Sorri, um
tanto embaraçado pela repetição, e percebi que naquele momento não me competia
criar, mas sim escutar.
Então dei por mim no início de uma nova volta ao Sol. Passei
o primeiro dia a mondar favas e ervilhas, em tronco nu (as alterações
climáticas são uma mentira bastante quente), a assobiar fusões entre música
clássica, jazz e cantigas lusitanas do tempo em que as pessoas se amavam dentro
de celeiros por entre rajadas de chumbo paterno e modorrentas garras feudais.
Soube bem, aquele momento, mesmo se eu ainda estava meio estupidificado pelos
alcatrões da cidade. Nos últimos tempos a consciência de mim mesmo passou a
viver em retrospectiva - no futuro que disseca o passado. O presente escapa-me
das mãos que nem plâncton em boca de baleia levemente esboçada com lápis 2B.
Banhado em sol lembrei-me de uma visão antiga, muito bonita,
que prefiro não contar.
O meu agradecimento pela beleza da vida é tão desmedido que
me sinto plenamente capaz de mastigar pedras. Sinto-me incapaz de recriminar o
homo sapiens sapiens e toda a sua loucura - mesmo se no outro dia ia
enlouquecendo porque tive de passar cerca de meia hora dentro de um shopping a
ser bombardeado por ruídos obscenos que faziam o meu ouvido e as minhas almas
sangrarem. No fundo percebo (sinto) que um dia tudo retornará ao mesmo ventre
fosforescente. Saio de casa com dinheiro de Monopoly no bolso, pronto a gastar.
Entretanto é bastante possível que a minha carcaça se
precipite contra os rochedos cauterizados da Serra Algarvia. Então, sem
internet e outras maldições citadinas, tentarei oferecer ao mundo uma faísca do
deslumbrante fogo que me inspira desde que nasci - do fogo da vida, de todos
nós, dos olhos que lêem isto. Escreverei com sangue e desenharei com os ossos,
feliz, sorriso de gato de Cheshire estampado na testa. Terei cuidado com as
expectativas - é bastante fácil projectar fantasmas nas paredes do futuro, mas
muito difícil parir paredes de vida no presente, e erguer templos onde possam
morar os sonhos.
O exílio islandês esvaziou as monções de amor que carregava
nos bolsos. Soube muito bem redescobrir o que sou, depois de décadas de fusões
e neblinas. Agora, depois de atravessar a tundra, com os bolsos
esburacados e frios, redescubro a elementar, vital, necessidade de amor
(refiro-me a partilhar histórias debaixo da lua, e não a pactos carnais).
Felizmente, graças ao sumo dos anos, sei que o amor não se procura, nem se espera, nem se deseja. O
amor materializa-se por vontade própria.
Os lobos pararam de uivar. Lá fora, numa qualquer viela escura, um foragido gato
doméstico vomita uma bola de pêlos e corre para a boca escancarada da noite. Fechando
os olhos vejo a bola a palpitar, a palpitar, a abrir-se como um ovo e a
libertar um diminuto lémur de cauda anelada, ágil e generoso, pronto a beijar a
testa de quem precise de exorcizar extinções.
Outro fragmento, clarividente e apocalíptico,
do fantástico Augsburger Wunderzeichenbuch (o Livro dos Milagres),
parido na Suábia (Alemanha), no século XVI.
