pois de momento encurralado por mim próprio, voluntariamente, num vazio quase total. há ainda mimos desnecessários - como a necessidade de soltar palavras, um par de livros e algumas asanas displicentes. mas não há amigos, nem amor, nem rede social num mundo trasladado para a vala comum digital, nem qualquer tipo de droga, nem jogo de computador, nem filme, nem a vigésima season da puta que os pariu, nem o luxo de escapar ao presente.
as palavras são sementes caprichosas que necessitam de solo extremamente fértil. necessitam da necessidade de exorcismo, de uma grande dor ou de uma alegria ainda maior. as palavras necessitam de arte e sangue. enfim, necessitam do que não possuo. mesmo assim escapo ao casulo da insónia e corro a espatifar-me contra a parede. escrevo - é tudo o que me resta.
o mecanismo é antigo - obedecer ao vazio, sem medo, sabendo que a vida é milagre e magia. assim me propulsionei, incontáveis vezes, na direcção de fantásticos biomas, de povos que caminham no tecto, de peitos generosos e macios, de abismos, sombras, e prodigiosos reflexos de luz que ainda me ardem na memória. quanto agradecimento e amor por tudo, por todos, sem mágoas nem arrependimentos.
no fundo tudo se resume a esta imagem: um poço com cinco metros de raio. um homem salta poço abaixo porque sabe que algures no fundo obscuro se esconde um trampolim extraordinariamente elástico. seguem-se dias de queda, dias não infelizes mas um tanto duros. uma manhã a face do homem encontra a pele do trampolim e esta estica, e estica, e o homem começa a sonhar com as fabulosas alturas que em breve conhecerá. mas no momento de máxima tensão uma tesoura gigantesca corta a ponta inferior do trampolim, sobre a cabeça do homem. corta a placenta que nutriria o renascimento. o resto do trampolim parte para cima e o homem fica em baixo, confuso, só, entregue a inauditos ardis. mas o homem confia, e sabe quanto aprenderá ao escalar o poço, quão mais glorioso será encher os pulmões na superfície e sentir o sol na pele.
o homem confia na eterna beleza dos mundos e arregaça a pele dos braços, electrizado, mas assim que tenta escalar o seu peito sangra. a tesoura sussurra: miopericardite aguda. seis meses sem escalar, sem correr, sem nadar, sem amar como um furacão.
o homem senta-se, conformado, consciente da sua imensa sorte, apesar da adversidade - porque as paredes do poço são quentes e nutritivas e o tempo é um jogo. contudo.
Endurance atascado.
Fotografia capturada por algum membro
da Imperial Trans-Antarctic Expedition (1914-17).
