lua cheia de setembro num penhasco


a lua cheia escorreu vida abaixo que nem golpe de adaga sobre o vapor dos dias. as matilhas da rua decidiram todas, num mesmo momento líquido, passar a viver nos tectos. o chão já não é o que era - rosnou um dos cães ao vizinho perneta do café, e acrescentou - isto pode parecer loucura, mas nem imagina a quantidade de sonhos suculentos que as pessoas deixam evaporar, para os tectos, enquanto derretem a vida diante dos ecrãs.
os cães de casa, mais por devaneio que por fome, tentaram imitar os comparsas selvagens e debandaram para os tectos. o Putchi encalhou no aparador e partiu a baixela da Companhia das Índias da Dona Odete. esta, inconsolável, implodiu pelo próprio cu adentro e regressou metamorfoseada em pluma de ave do paraíso que deslizou janela afora para iluminar a paixão dos namorados. Sparky - um pastor alemão raçado de homo sapiens sapiens - passou o tecto a correr, perdeu o tino e a consciência do plano de terra, e caiu janela abaixo na direcção da Nebulosa da Aranha Vermelha. os poucos revoltosos que conseguiram ferrar o dente nas carnes do sonho vergaram com a sonora ditadura do jornal enrolado. restaram os gases luminosos expelidos pelos retrácteis cus caninos, observáveis fragmentos de sonho digerido, que faziam os donos chorar como se os sonhos pertencessem a alguém digno da mais profunda pena.

eu observei tudo com olhos de criança, mas ainda dividido entre a alegria e o constatar que não estou triste. faltam-me três meses de recuperação e mais vinte dias de Colchicina. o coração parece ter recuperado e estremece, irrequieto, impaciente para ser despedaçado novamente pela explosiva beleza da vida, pelo cume de serros inóspitos e pela garra afiada de mulheres aladas.
ainda não posso galopar nu pelos serros para uivar o meu agradecimento à Lua. nem posso entregar-me ao antigo sonho de me tornar invisível no Gerês, para aprender com os lobos e raspar o peito nas arestas dos penhascos. tampouco posso pegar numa enxada e transformar solos em nutritivas estruturas de luz e cor. ah, o prazer de criar santuários para a bicharada. gritar-lhes: venham, moços e moças multiformes, aqui podem abrigar-se das chuvas tóxicas, comer quanto quiserem e fazer amor nos charcos. aqui não canta a pólvora e os pés esmagam com paz bovina. aqui Ouroboros dorme em lençóis lavados e sonha com a casca de um grande bivalve que explode com amor de hidrogénio.

sonhei que me escondia no IKEA® e passava a noite numa salinha escandinava, babilónica, sorvendo batatas fritas radioactivas e deliciosas enquanto chorava diante do sublime Ugetsu Monogatari. as lágrimas e a beleza do filme impregnavam as mobílias com magia e infectavam os lares das famílias do futuro com os vapores de uma redenção milagrosamente possível.
acordei e imaginei um cão que promete ao seu dono ir caçar no dia seguinte. mas a meio da noite, durante um cerco a uma cadela com o cio, o cão é capturado pelos esbirros do Canil Municipal. na sua cela fria, o fiel canino percebe que não poderá encontrar-se com o seu querido dono, como havia prometido. decide então cometer seppuku e atravessar as serras e as encruzilhadas como fantasma. o dono recebe-o de braços abertos, sente a etérea língua na bochecha e transforma-se num sobreiro. cada bolota é um beijo invertido. eu adormeço sorrindo. [seppuku removido dos Contos da Chuva e da Lua/Encontro pelos Crisântemos.]

quem não tem cão caça com fantasma. há milhões de maneiras de esfolar o cão. eu experimento deixar o ego estrebuchar a um canto, imaturo e imbecil como sempre, gritando a necessidade de fazer as coisas à sua maneira.
acordo fresco e flexível, sorvo o dia devagar, sem os fantasmas do passado e do futuro a corroerem-me as articulações. esqueço os insultos de ontem e não temo os abismos de amanhã. e assim percebo que é possível caçar com qualquer espécie animal ou vegetal do planeta. axolote a estraçalhar a jugular dum magnata do petróleo - em vez de sangue, esguicha ouro negro sobre os scarpins imaculados dos advogados obesos e gordurosos. fecho os olhos e vejo três figuras:

1. uma nossa senhora de Fátima. abençoa o homem que chega ao café e diz: ora, de entrada vai ser uma vaca inteira, mal-passada, se faz favor. mas deixe estar não traga o patê e as azeitonas, para não estragar o apetite. um exército de Trimalquiões. a sobremesa chega num camião-betoneira cheio com creme de pastel de nata. o médico visionário que janta a um canto imagina no seu consultório um tecto retráctil para as gruas baixarem os pacientes obesos que perderam o caminhar. e no conforto de um lar, na esquina superior direita da cidade, um homem abençoado grita: não me trouxeste logo a puta da cerveja, Maria! já te disse que sem cerveja os cantos dão sempre golo. bem dito, bem feito. e na esquina inferior superior de um templo o padre diz: promete tomar a sua mulher como propriedade privada, para a escavizar, para se esvair dentro da sua insatisfação e rebolar para o lado, para lhe proporcionar roupa suja e comida para ela enfiar os cornos numa cozinha até que a morte os separe? e o noivo apaixonado responde: claro, sua santidade, mas se ela engordar muito, ou se a rata alargar muito a parir, despacho-a logo. e o padre sorri, compreensivo, e pergunta se vão pagar com multibanco.

2. um buda roubado. o vegan tira a mordaça do carnívoro que ele aprisiona e tortura há duas semanas. o obeso cativo grita que não fez nada mas o vegan sufoca-o de imediato com o tofu embebido em espirulina biológica. os outros vegans colam mais fotografias da vítima na parede. uma foto mostra o homem numa marisqueira. outra mostra-o na tourada. outra na casa de putas. depois os vegans vão roubar budas, dar aulas de yôga e encomendar na internet poderosos cristais energéticos arrancados de grutas deslumbrantes recorrendo a dinamite e putos de seis anos. es que los mas chiquititos llegan más abajo, donde están los más grandes. los gringos quierem todo grande. às seis da tarde, fatigados pela interminável tarefa de resgatar o mundo inteiro das garras do mal, os vegans envergam as suas t-shirts vermelhas com as fronhas do Ché e discutem o estado monstruoso do mundo. o milagre da vida passa-lhes ao lado, de bicicleta, mas eles estão demasiado ocupados a odiar para darem de vaia.

3. o gato de plástico dos chineses - aquele que diz adeus infinitamente. adeus a todos os dogmas, a todos os gurus, ao medo, à busca da elevação e da perfeição. obrigado ódio. obrigado vaca, obrigado tofu. adeus, amo-vos a todos, mas tenho de ir. tenho de morrer cada dia para manter os átomos a bailar. adeus. e o gato afasta-se. e a sua pilha dura mais que a dos coelhos. a sua pilha é eterna.

pois, trabalhar mata. mas plantar a minha própria comida implica uma média de duas horas de trabalho por dia, ao sol, a cantarolar. duas horas para a comida, ou oito horas para o veneno da labuta dourada?
a terra é o antídoto contudo o gesto de comprar terra fica suspenso no ar e no medo. não consigo fazê-lo sozinho e a companhia tarda. a carne envelhece mas o espírito cresce e saltita contente no baile da entropia. faça o favor de entrarquer infusão ou vinho?
no canto do jardim vejo o Sol a contar histórias às crianças. conta que um dia explodirá e envolverá tudo - plástico e lã, murros e beijos - numa mesma bola de conforto. não levem a coisa tão a sério! - diz. e acrescenta, sorridente - não acreditem nessas tretas sobre morrer e desaparecer. todo o amor nasce no vazio.









Ukiyo-e de Yoshitoshi Taiso/Tsukioka.
Os seus Cem Aspectos da Lua ensinaram-se
os outros cem milhões de aspectos de tudo.