exercício em Fibonacci, em ordem decrescente, com alternância entre claro e escuro (optimismo e pessimismo ficcional):
bairro novo em terra velha. tenho observado duas coisas (que na verdade são duas centenas). a primeira: cada dia, pouco depois do sol desaparecer, aterram na árvore - numa copa generosa que quase me tapa a janela do quarto - uns trinta ou quarenta pintassilgos. poisam para conversar e partilhar os acontecimentos do dia. contam onde havia água mais fresca, onde as bagas eram mais fartas, onde havia gato, ou onde a luz dançava com maior esplendor (ontem todos concordavam que a velha alfarrobeira, e os seus milhares de dedos verdes, haviam entrançado a luz com uma meticulosidade deliciosa).
a segunda coisa só aconteceu duas vezes: o vizinho de baixo, pouco depois dos pássaros se instalarem nos ramos, desatou a palrar estranhas confissões. curiosamente, os pássaros não se assustaram com ele (de mim exigem uma dedicação de estátua pois esvoaçam para longe ao mais pequeno gesto ou ruído). não costumo ouvir o que não me pertence, portanto tentei abstrair-me dos seus segredos. mas os próprios pássaros pareciam ouvi-lo - calavam-se quando ele falava e falavam quando ele se calava.
como ninguém está a ouvir, posso contar o que julgo ter ouvido:
debaixo dos cotovelos o mesmo parapeito que sentiu os meus ossos crescerem e, agora, diminuírem. imagino que ainda existem pássaros e que aquilo que respiro ainda contém oxigénio. fecho os olhos, ouço as asas oleosas, e a visão do fim invade-me. sete espécies de pássaros, juntos na tragédia da escassez. é a última reunião e contam-se as árvores que restam. um jovem pardal, optimista e louco, ousa mencionar um certo fenómeno luminoso que mereceria ser apreciado. os outros pássaros, irados, devoram-lhe as entranhas. agradecem a casualidade - naquela noite muda de esperança, dormirão de barriga cheia.
depois imagino que ainda tenho um vizinho de baixo. esqueço o oceano de óleo e merda que inunda o mundo e ouço o vizinho dizer:
desperto aos gritos (sonhara com o fim da quarta versão da Terra). chamo os tigres e espero que eles preencham o jardim. sinto as suas pelagens macias nas costas nuas e inalo os seus hálitos de felino molhado. vejo a vizinha a encher um alguidar de barro na cascata dos homens (onde deslizam milhares de homens do tamanho de uma laranja, nus, oleados e alegres). ela agarra um pelos pés, leva-o aos lábios, chupa-o pelo crânio e descarta a pele vazia. depois olha para mim, pisca-me o olho e sussurra: só faltava um bocadinho de sal...
gostava de ter sementes para dar aos pássaros, mas as balas estão a ganhar ferrugem. descubro que os bichos nem tentam escapar - estão fartos de lutar por um grão de comida, uma gota de orvalho ou uma amostra de vida. vou para o shopping, disparo para o ar e imagino famílias de fantasmas a fugirem da chuva.
hoje lembrei-me que um dia o sol explodirá. imaginei as poeiras de vida a flutuarem até encontrar solo fértil. vi todas as espécies jamais concebidas, e outras tantas novas, a bailarem de mãos dadas.
disparei uma bala para o ar e esperei que me caísse nas mãos. veio manchada de sangue.
