um minuto e vinte bastam para chorar e ver todo o nosso percurso nesta terra, desde os primeiros passos e erros ao miraculoso constatar dos ciclos que se repetem enquanto dormitamos debaixo da generosa árvore da vida. tudo isto neste preciso momento por causa dos Ruined Castles de Rahsaan Roland Kirk. este senhor tem-me incinerado a filigrana da alma, nos últimos meses, com uma candura que me deixa nu, a um canto, a derreter de amor. no seu bolso de ceguinho traz sempre um pequeno presente, simples e bonito. ele e Moondog, os cegos que ultimamente me guiam.
posso até imaginar que alguém lê estas palavras e dizer: irmão, se em qualquer momento, durante o girar da Terra, te sentires afastado da beleza - ouve um dos cegos. irmã, se precisares de um abraço puro cheio de amor desinteressado, vazio de loucuras, ouve um dos cegos.
que se fodam as divas e os galos com dinheiro e merda na caixa craniana. que se fodam todos os fenómenos virais. os olhos de outrém são filhos bastardos do tempo, tão pequenos diante do infinito milagre da energia. que se fodam os olhos dos outros. olhemos para dentro e peguemos fogo às cordas que amarram o poeta sedento e suplicante que tememos soltar.
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os links sempre me pareceram batota. a sua perenidade (url not found) sempre me pareceu indigna de se associar às palavras - esses cristais com potencial eterno. tampouco aprecio anglicismos. mas subitamente, agora mesmo, reparando no peso que carregam os meus olhos, percebo que tudo é magia e tudo, tudo, são degraus da redentora escadaria da Entropia. portanto: Moondog, Single Foot, 1979 - para quem gosta de dançar nu, baixo luar ou círculo de velas, com ou sem vinho, só ou bem acompanhado, mas sempre sem medo de olhos.
os nossos olhos, se extraviados do amor, se prestos na censura, pesam tanto quanto os olhos de outrém, e enterram os nossos passos na peçonhenta lama do medo.
Moondog photographed by someone whose name, unfortunately, i ignore.
