luas pequenas, gordas e vermelhas, a precipitarem-se para o vapor.
o último ensaio do mar antes de ser convidado a cear em terra em luar de Setembro (pelas marés vivas das saias longas e arejadas). e as águas grandes a ensinarem os peixes a pedir licença, a navegar pelos corredores das casas estupefactas e a poupar aos caniches uma morte violenta mas honrosa.
o último ensaio do mar antes de recuar, completamente nu, e mostrar os segredos que, uma vez por ano (também em Setembro), fatigados mamíferos podem sentir debaixo das patas e dos dedos, entre as rochas e as falésias.
[elipse]
o apocalipse poderá chegar com um cão gigantesco (a sua cauda a abanar chamusca-se na tralha que reentra na atmosfera) a correr atrás de coelhos gigantescos. uma pata a espalmar a inevitável estátua da liberdade. outra pata a trazer sombra, finalmente, fatalmente, à cauterizada planície alentejana. é melhor nem falarmos de pulgas ou dejectos, mas pelo canto do nariz cheiro um tom acastanhado no Parlamento.
[fim de elipse]
a visão das marés mortas mostra-me que não estou cá, no presente. e deve-se estar sempre cá, no presente. sempre.
portanto suspeito que esta lua encerra o derradeiro excesso - excesso conformado, em paz, apesar de consciente da necessidade de ser suprimido. posso apenas suspeitar porque, neste Agosto, por muito que olhe para o céu, não consigo ver a lua (roubaram-ma). poderia chorar a lua que perdi, mas prefiro recordar e cantar todas as luas que outrora roubei. luas de canela e beijo. melodias tatuadas na espinha dorsal da alma e o cérebro removido por mãos de petizes, gentilmente mergulhado num balde com mil tintas e imediatamente reposto (para evitar a morte). o suor a dissolver-se em águas escuras.
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a lua cheia de Agosto traz no ouvido uma música:
god is alive, magic is afoot
poema de Cohen na língua de Buffy Sainte-Marie. 1969.
detrás dos olhos, a lua traz areia:
woman in the dunes
Hiroshi Teshigahara, 1964.
a areia das nossas praias é composta por ruínas de criaturas, pedras preciosas, vento, sonho, amor e sémen cristalizado. a areia deste poderoso filme parece composta por petrificados fragmentos de Kafka, ou de Sartre, ou de ser humano - mas tudo único e tudo japonês. uma das mais bonitas e comoventes histórias que a lua, olhando para baixo, jamais conseguiu ver. e as suas lágrimas soltam-se diante da beleza, gordas e vermelhas como luas, e precipitam-se para o efémero vapor de Agosto.)
fragmento do filme Woman in the Dunes,
de Hiroshi Teshigahara,
1964.
