passeava a raposa pelo zimbral, ágil e vaidosa, quando o velho melro lhe falou assim:
- boa tarde, dona raposa, como tem passado?
a raposa pensou em ignorar o esfarrapado pássaro, mas estava tão contente com a sua esmagadora eficácia na arte da caça, que decidiu gabar-se um pouco. como todos os pássaros ouviam o que o velho melro tinha a dizer, a raposa assumiu que as suas mais recentes façanhas encontrariam, também nos céus e nas copas, a glória que já conheciam nos prados.
- pois bem, velhote, tenho passado muito bem. estou gorda, o meu pêlo está sadio e brilhante, as minhas patas fortes e inteiras, a minha cauda é uma explosão de cor. além do mais, descobri uma nova maneira de caçar coelhos - inédita neste bosque ou em qualquer outro - e tenho iluminado as clareiras com a minha dança sublime e mortal. até um coelho que encurralei no outro dia disse que era uma honra morrer a meus dentes. estou portanto, melhor que qualquer outro bicho.
depois de um silêncio que muito enervou a raposa, o velho melro aumentou a afronta com um riso alto e trocista, e disse:
- muito tens a aprender com a tua irmã. essa, sim, tem motivos para se orgulhar. mata apenas quando necessita. avisa-nos dos passos do homem e desvia para si os cães e as balas. nem pestanejou quando perdeu a pata e continuou o seu caminho quando perdeu o olho. os bichos mais tolos gozam com ela, chamam-na coxa e zarolha, mas ela suporta os abusos com um sorriso pleno de amor, e continua a desviar para si as balas sem nada receber em troca. a tua irmã carrega com ela o espírito do bosque e a sabedoria das velhas vozes - as árvores contam-lhe segredos que eu, dedicado estudante de vários bosques e ribeiros, jamais virei a descobrir. da tua irmã nunca ouvi gabarolices ou tiques de superioridade. podias aprender um pouco com ela, não achas, jovem raposa?
durante o discurso do melro, a raposa passou por intensos e distintos processos. primeiro, foi acometida por uma raiva sanguinária - sondou até a árvore onde pousava o pássaro, disposta a acabar com aquela tresloucada insolência. depois, seguiu-se uma fugaz inveja da sua irmã. mas logo a raposa decidiu que o pássaro estava completamente senil, e que todas as suas palavras não passavam de uma acidental anedota.
depois de uma valentes gargalhadas, a raposa disse:
- ó, velho louco, o meu respeito pelos pássaros desceu das alturas e estatelou-se na lama. mais do que uma vez te vi a discursar para bandos vários e numerosos, à sombra do grande sobreiro. julgava que se reuniam em teu redor para aprender mas, depois das baboseiras que ouvi, suspeito que te procuram para rir e troçar. vens-me falar da minha irmã esquelética e deformada, e das suas supostas virtudes, quando toda a minha família se envergonha dela e das suas escolhas. sempre caçou mal. só pariu duas vezes e deixou morrer quatro crias. sai do seu caminho para ajudar os outros bichos - bichos que querem mal às raposas! - e agora arrasta-se por aí sem brilho, sem dentes, e não tarda morrerá. como podes tu, com seriedade, dizer-me que a morte e a decadência são exemplos a seguir?
o pássaro assumiu um ar grave que parecia relacionado com algo exterior - como se uma sombra estivesse prestes a cobrir o vale. depois controlou-se, e disse:
- não tenho autoridade para louvar ou criticar qualquer criatura que seja. a coruja disse-me que a tua irmã erra, que cada animal deveria seguir o seu próprio caminho - de acordo com os planos da grande mãe - para manter o equilíbrio que sempre nos serviu. mas eu acho que a coruja deixou os seus grandes olhos estagnarem. recusa-se a admitir novas possibilidades e, portanto, mesmo se consegue vislumbrar um rato no outro canto da terra, não consegue ver o problema que tem debaixo das asas. as velhas questões de equilíbrio - as que dizem respeito ao que os bichos matam e comem - podem ser postas de parte. estamos condenados a debatê-las para sempre, a atingir cumes de plena sabedoria e a cair no solo e começar de novo. não conseguimos guardar as nossas palavras nas cascas brancas, como o macaco-pelado, portanto a vida é o rio que faz a nossa sabedoria deambular, flutuar perdida até encontrar terra seca onde brotar, ou profundo abismo onde se perder.
o melro percebeu que a raposa perdia o interesse nas suas palavras e decidiu mudar o discurso. a gravidade tomou conta do seu bico.
- na verdade venho aqui a mando da tua irmã. as novas questões de equilíbrio exigem a cooperação entre todos os bichos. cada vida é preciosa, precisamente porque o macaco-pelado despreza toda a vida. diz a tua irmã que há ódio no ar. que a tua formosura e habilidade despertaram a ira do macaco-pelado - não porque escasseiem os coelhos, mas por odiosa inveja. um velho abutre contou à tua irmã que se prepara uma grande carnificina, um ataque à vossa espécie como nunca se viu nestes prados. é muito...
o melro calou-se quando a raposa lhe virou as costas e rosnou:
- a minha irmã é uma criatura invejosa e mesquinha, a vergonha de uma raça, e tu és um tolo para participares nos seus jogos. há meses que essa louca vive enfiada num morro, escanzelada, doente, com as patas a sangrarem. não perco tempo com ela, nem contigo.
o pássaro elevou-se no ar, decidido a cumprir a sua tarefa, quer a raposa quisesse ouvir ou não. poisou numa árvore entre o ribeiro e a raposa, pois o calor apertava e todos os caminhos levavam às águas frescas. quando a raposa passou, já menos irrascível, o melro desceu das alturas e, pairando sobre a raposa, disse:
- o Monte Seco é o único sítio com túneis suficientemente seguros. a caçada aproxima-se, pois avistam-se abutres do outro lado da montanha. haverão mais cavalos que raposas, mais cães que coelhos, mais balas que olhos. troca a arrogância pela sabedoria, jovem raposa, ou a tua bela pelagem acabará no pescoço da macaca.
a idade dá e tira. o cérebro do melro acumulava sabedoria mas o seu velho corpo relaxava e endurecia. um centímetro de erro, no seu flutuar, bastou para que a raposa - pouco sábia mas a fervilhar de genica - se elevasse no ar e o agarrasse pela cauda. não o matou, mas pavoneou-se com ele na boca durante toda a tarde, como se a sabedoria fosse um adorno. por fim largou-o perto do ribeiro, no meio da lama, para que os caranguejos o comessem.
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a raposa conseguiu entrar numa espécie de câmara interior completamente escura. os latidos dos cães ecoavam como uma implacável trovoada de carne e dentes. a câmara era fresca, mas a raposa sentia todo o seu corpo a arder. perdera metade da cauda e uma orelha, uma bala atravessara-lhe o lombo, e alguns parasitas de chumbos acomodavam-se na sua coxa. o seu coração desalmado conseguia fazer-se ouvir entre os latidos.
desvairada pelo pânico e pelo bafo dos cães, a raposa tardou a perceber que não estava só. uma estranha criatura ciclópica mirava-a, em silêncio, no outro canto do buraco. lá fora os cães calaram-se, como se tivessem partido, e a raposa jovem murmurou:
- afastam-se. viveremos.
mas a raposa velha alertou:
- preparam algo. se saíres daqui, minha irmã, morrerás.
seguiu-se um estrondo incompreensível, doloroso e sólido, e parte da toca desabou. ouviram-se os gritos de um macaco-pelado e algumas gargalhadas disformes, maléficas, pertencentes a uma estirpe de animal que, de alguma forma, não parecia fruto do mesmo ventre que parira o resto dos bichos. retornaram os rosnares assassinos, mais próximos e dilacerantes, e a raposa velha disse, com uma voz incompreensivelmente calma:
- a toca aguenta. por favor não saias, irmã. precisaremos de ti, para continuarmos fortes.
a raposa jovem não aguentou mais. o seu orgulho não a permitia associar-se àquela proscrita. as raposas estariam todas em algum lugar seguro. tudo não passaria de um pesadelo que em breve terminaria. e assim foi.
ouviram-se tiros e ganidos, e assim morreu a última raposa fértil do vale.
Le Renard Anglois,
Gustave Doré, 1867.
