a mesma génese de sempre


um lavrador decide, mente turva, que as suas sementes não são suficientemente boas para serem plantadas. inseguro, segurando a enxada com uma mão e arranhando a barba com a outra, decide copiar o seu terreno. levanta a cópia três metros acima do chão - não teme a sombra sobre o solo principal porque conhece a transparência das múltiplas realidades. respira de fresco.
eleva-se três metros no ar e prepara-se para cavar mas - louco uma vez mais, amedrontado, corrompido pelas infinitas possibilidades da caleidoscópica cultura que o pariu - decide, uma vez mais, que aquele não é o poiso para as sementes que trepidam de excitação na sua mão suada.
faz nova cópia do solo e arrasta-a para a umbria, para longe dos olhos do mundo. pensa: que elas germinem por ali, livres do meu medo, despidas de razão, verdes, que se devorem amem matem com mãos ternas e verdes.
nova loucura se apodera do pobre lavrador - mas desta vez é coisa sã, séria, determinada, irreversível como uma cascata de lutadores de sumo a deslizarem desde a estratosfera na direcção de um ovo de codorniz, o impacto iminente, mas a cria eclode a um milímetro da incandescente borda nipónica que descende e magicamente estamos na catedral vazia e escura. os vitrais depositam os fios de luz no regaço das cores. o lavrador, nu, continua a rir. murmura:
pouco importa como planto, o que planto ou para quem. o olho do meu vizinho brilha menos que o Sol. já foi tudo plantado, desde nunca, e tudo será plantado novamente, para sempre.
um alívio imenso apodera-se do homem. fecha os olhos e estende-se no chão morno da infinita catedral. uma gigantesca baleia de cristal estatela-se ao longe e os seus fragmentos repetem, com a suavidade de uma harpa embebida em mel, os mesmos acordes tocados no grande princípio.
o homem adormece e a sua mão relaxa. as sementes, germinadas e ansiosas, desabam aqui.







A Street Vendor Selling Mummies in Egypt
Félix Bonfils, 1875.